[Drops] 3 livros: Só Garotos | Linha M | Outros jeitos de usar a boca



Série de mini impressões de leitura.

Só Garotos (Just Kids), Patti Smith
Tradução de Alexandre Barbosa de Sousa
280 páginas; Companhia das Letras

Uma das melhores leituras que fiz e uma das que mais mexeu comigo -- logo no início já fiquei emocionada. A relação que Patti e Robert Mapplethorpe mantiveram ao longo da vida é uma das mais bonitas, assim como a história de vida deles, vindo de origens humildes, passando fome e vários outros perrengues juntos na luta para conseguir fazer e viver de arte.

É muito bonita a maneira como Patti Smith amarra essa história, repleta de pequenas sincronias, desde o dia em que se conheceram até o dia da morte de Mapplethorpe. Me fez pensar em algumas pessoas e situações da minha vida, fazendo com que me identificasse em vários pontos e talvez por isso a leitura tenha sido tão impactante e inspiradora para mim. Fica a recomendação, principalmente para os envolvidos com arte e cultura.

Linha M (M Train), Patti Smith
Tradução de Claudio Carina
216 páginas; Companhia das Letras

Em seu segundo livro de memórias, Patti Smith mantém seu estilo poético e nada cru para recontar momentos de sua vida, sempre ligados de forma quase mística a algum sinal que aparece pelo caminho dela.

Como entrega logo no início (e pelo título, M Train, cujo sentido em inglês seria 'trem da mente'), não há uma única história a ser contada, uma trama a ser desenrolar - há apenas uma mulher tentando compreender o que significa envelhecer e passar dos sessenta anos. Se há um tema aqui, ele seria basicamente a perda: a perda da sua cafeteria preferida, de um casaco querido, de ídolos, amigos e, principalmente, de seu marido e da infância dos filhos. Linha M é Patti Smith seguindo em frente e solitariamente com sua vida.

Além dos ótimos insights, das reflexões permeadas de referências literárias (Rimbaud e Murakami, principalmente, mas não apenas), cinematográficas e de séries policiais como The Killing, Wallander, CSI, Law & Order, Luther e outras (ela chega a dizer que gosta mais de detetives ficcionais que de muitas pessoas reais), o grande barato do livro é que o universo de Patti é amplo e ela está mais preocupada em contá-lo de uma forma poética que factual.

Outros jeitos de usar a boca (Milk & Honey), Rupi Kaur
Tradução de Ana Guadalupe
208 páginas; Planeta Brasil


Rupi Kaur escreve poemas poderosos sobre abuso físico e emocional, ausência, amor, perda, autoestima, feminilidade e cura. Algumas vezes ela pode ser motivacional demais, pendendo mais para a autoajuda do que para a poesia, mas esse lado equilibra bem com a afiação de todo o resto. 

Gosto da musicalidade dos poemas no original; na edição brasileira eles perdem essa musicalidade. A tradução da também poeta Ana Guadalupe é muito boa (admiro os tradutores de poesia, não é tarefa fácil), mas os poemas soam muito melhores em inglês.







Leia também:

[Drops] A série Napolitana, Elena Ferrante



Impressões de leitura sobre a tetralogia napolitana, da escritora italiana que assina com o pseudônimo de Elena Ferrante. A série foi responsável por gerar a onda chamada Ferrante Fever (febre Ferrante), e com razão: se o primeiro livro prepara todo o terreno para o que vem a seguir, os seguintes cumprem com a promessa de entregar histórias envolventes, bem narradas e realistas, fazendo com que o leitor acompanhe vidas inteiras de pessoas saídas da pobreza de Nápoles enquanto a Itália e o mundo mudam. Apesar das capas alegres da edição brasileira (prefiro as italianas), as páginas estão cheias de dor, violência, perdas, mortes e sofrimentos diversos, mas passam longe da manipulação do leitor e do sentimentalismo barato. É apenas a vida seguindo seu rumo; apenas a realidade apresentando sua face.

Em nota relacionada, a série está prevista para ganhar uma adaptação para a TV pela HBO em 2018. Vem coisa boa por aí.

A amiga genial (L'amica geniale)
Tradução de Maurício Santana Dias
336 páginas; Biblioteca Azul

Ainda que o ponto principal de “A Amiga Genial” seja tratar do período de formação e a dinâmica da relação entre Elena e Lila, o que mais chama a atenção é violência que perpassa o romance, em especial a violência cotidiana contra a mulher. Vivendo em uma vizinhança empobrecida, de baixa escolaridade e com alto índice de criminalidade, a maioria das mulheres, assim como os homens, deixavam a escola cedo para ajudar na casa ou nas finanças da família e eram encorajadas a casar ainda adolescentes, com homens de situação financeira melhor e assim ficava bem claro quem mandava e quem deveria obedecer.”

Resenha completa: aqui

A história do novo sobrenome (Storia del nuovo cognome)
Tradução de Maurício Santana Dias
472 páginas; Biblioteca Azul

'História do novo sobrenome' é mais viciante que 'A amiga genial', mas também mais novelesco: os dramas giram em torno de amores não correspondidos, casamentos, maternidade, estudos, brigas intermináveis entre famílias. O que impede que a história se torne uma grande novela das oito é o talento da autora, que é astuta ao construir sua trama sem criar cenas gratuitas, faz uso de referências sofisticadas e vocabulário rico e trata de assuntos sérios como pobreza, ignorância, violência e violência doméstica de forma crua, sem cair no melodrama.

O livro acompanha Lila e Lenu da adolescência ao início da vida adulta, por onde seguem por caminhos diametralmente opostos, e chega a irritar a forma como Lenu fica o tempo inteiro se comparando/competindo com a amiga e imaginando que as vidas alheias giram em torno dela. Talvez seja um recurso para tentar despistar o leitor e surpreendê-lo, talvez sejam traços calculados do complexo de inferioridade narcisista de Lenu, mas ela me cansou bastante e se mostrou uma personagem cada vez mais chatinha. E eis mais um êxito de Ferrante: Lila é o tempo todo descrita pelos personagens como possuidora de uma força natural capaz de atingir a tudo e todos e essa força é tão evidente até para o leitor, transformando Lila na verdeira protagonista e fazendo com que Lenu, a narradora, não passe de uma coadjuvante sem graça, mesmo quando a outra está completamente distante.

A história de quem foge e de quem fica (Storia di chi fugge e di chi resta)
Tradução de Maurício Santana Dias
416 páginas; Biblioteca Azul

Desigualdade, revolução, movimento feminista e contracultura são os elementos que costuram o pano de fundo das vidas de Elena e Lila, agora beirando os 30 anos. Elena permanece sendo uma personagem um tanto quanto vazia, frívola, que me irrita profundamente, e uma narradora não muito confiável. Lila, vista pelos olhos de Elena, parece pior do que realmente é. Ela entende muito cedo como o mundo funciona e do que as pessoas são feitas.

Com a série napolitana Elena Ferrante me parece escrever um tratado sobre as existências femininas, da infância à velhice. Esse aqui é melhor livro da série.


A história da menina perdida (Storia della bambina perduta)
Tradução de Maurício Santana Dias
480 páginas; Biblioteca Azul

A primeira metade deste livro me entediou e irritou bastante pela obsessão de Lenu com o sedutor em série Nino. Sei que entre os fãs existe a brincadeira Fuck Nino Sarratore, mas para mim fica claro que Lenu sabe o que está fazendo e faz mesmo assim. Ambos se merecem. É bem chato o melodrama novelesco de uma Lenu adulta vivendo como uma adolescente apaixonada, incapaz de resistir a Nino somente por olhar para a beleza e o charme dele. Basta ele sair de cena que o livro melhora consideravelmente.

Na maturidade, Lenu se torna um pouco mais interessante, mas ainda mantém seus traços de pessoa competitiva, com complexo de inferioridade, sempre se comparando às mulheres com quem convive, principalmente Lila, a quem nunca deixa de enxergar como uma espécie de ameaça. Já Lila não teve uma trégua na vida: sua jornada é a do sofrimento e tentativa de sobreviver com alguma dignidade em meio a tanta injustiça, pobreza, ignorância e violência, sem jamais assumir o papel de vítima ou sentir pena de si mesma. É de longe a personagem mais interessante e talvez mais verdadeira da série, sempre enxergando através e além das pessoas e das situações.

Gostei bastante de acompanhar essa história, principalmente pela forma como contexto político, social e cultural de cada época afeta na vida e nas escolhas das personagens. É melancólico perceber como os sonhos e convicções de juventude vão sendo destruídos sem piedade por uma realidade dura que não poupa ninguém. A série toda reforça a forma como o estudo e a instrução são o caminho para o desenvolvimento e para uma vida de menos privações e violência, mas mostra que são mesmo as escolhas, e suas consequências, que vão definir o destino de cada um. Um final satisfatório para a tetralogia napolitana.

[Drops] 3 mangás: Erased | Ao Haru Ride | Orange



Erased (Boku Dake ga Inai Machi/僕だけがいない街), Kei Sanbe
"A cidade onde só eu não existo"
8 volumes - Ainda inédito no Brasil


Um thriller com pitadas de fantasia, que trata de assuntos muito pesados como pedofilia, maus tratos, violência doméstica e isolamento social de forma muito sensível e tocante. Na história, Satoru Fujinuma é um mangaká frustrado que tem um dom de revival - de repente, ele se vê preso no tempo e só consegue seguir adiante quando consegue evitar uma catástrofe iminente. Um dia, ele acaba sendo acusado de matar a própria mãe, o que engatilha um revival que o leva há 18 anos no passado, época em que 3 crianças das redondezas, um deles um amigo de Satoru, foram sequestradas e mortas. Apesar do corpo de criança, Satoru mantém a mentalidade de adulto e dessa vez vai tentar impedir que as tragédias aconteçam - o que pode custar sua vida. Essa parte do mangá lembra um pouco os filmes "de criança de bicicleta" dos anos 80, mas com um pano de fundo muito mais sombrio. É uma história sobre o impacto de nossas ações, os perigos do isolamento social e uma chance para conseguir reconstruir a própria vida. É muito tocante e confesso que chorei várias vezes.

O mangá ganhou uma versão em anime bem digna, porém o final foi mudado e acontece de forma um pouco corrida. Merecia uma temporada de 24 episódios para transpor com fidelidade a densidade do mangá -- os trechos mais sinistros sobre o passado do assassino e o impacto que a morte de Harumi, um dos amigos de infância de Satoru teve em sua vida na primeira vez foram cortados e acredito que seriam essenciais. A história vai ganhar uma série pela Netflix produzida no Japão e prevista para estrear esse ano.


Ao Haru Ride (アオハライド, Aoharaido), Io Sakisaka
"A primavera de nossas vidas"
13 volumes, editora Panini

Este é um shoujo que evita alguns clichês do gênero e trabalha muito bem com outros. Mostra um período da vida em que Yoshioka Futaba e Mabuchi Kou se reencontram no ensino médio depois do Kou ter se mudado de repente de Tóquio. Em seu retorno, ele não é mais a mesma pessoa, tendo se tornado um sujeito deprimido, entediado e indiferente devido ao luto após a morte da mãe. Kou rejeita a criação de laços com qualquer pessoa, inclusive seu irmão, e se sente culpado de seguir em frente com sua vida após não ter feito companhia a sua mãe quando teve a oportunidade. Apesar disso, a presença de Futaba, por quem era apaixonado quando mais novo, mexe com ele e ela, assustada e triste com a mudança de personalidade dele, começa a tentar fazer com que ele volte à vida. Sendo uma dramédia romântica, acontecem muitos percalços no caminho até ele conseguir se curar e assumir seus sentimentos.

É particularmente bonita a forma como a mangaká Io Sakisaka conduz a recuperação do Kou através dos laços humanos - não apenas românticos - e o mais bacana do mangá é que a protagonista não é retratada como uma menina de baixa autoestima, complexo de inferioridade ou desesperadamente apaixonada, como é comum nessas histórias. Futaba tem personalidade, vida e interesses próprios, priorizando mais a amizade que o relacionamento amoroso a qualquer custo.

Outra coisa que me chamou a atenção é que a Sakisaka criou personagens maduros com emoções e em situações muito verossímeis, me fazendo lembrar de situações, emoções e pessoas da minha própria adolescência.
 
A arte também merece destaque, e é particularmente bonita, com ilustrações bem delicadas, marcando bem as expressões dos personagens e transmitindo uma ideia de movimento.

Para quem gosta de comédia romântica e YA e quer ler uma coisa um pouco diferente, vale a conferida. Infelizmente, o anime foi cancelado a primeira temporada e o filme é bem aquém das expectativas.




Orange (オレンジOrenji), Ichigo Takano
5 volumes; editora JBC

Orange bebe na fonte na ficção científica para oferecer uma segunda chance a seus personagens: aos 26 anos eles descobrem a verdade por trás da morte de um amigo de escola, Kakeru, e movidos pela tristeza e pelo arrependimento de terem tomado as decisões erradas, ou de simplesmente não terem feito nada, decidem tentar a sorte enviando cartas para si mesmos, que deveriam chegar ao passado através de uma fenda no triângulo das bermudas. A obra se baseia na teoria dos universos paralelos para defender a premissa de que se em uma linha do tempo as coisas não podem mais ser mudadas, talvez haja outra (ou outras) em que o futuro pode ser diferente.

Com as cartas vindas do futuro em mãos, eles procuram fazer o possível para evitar o suicídio de Kakeru. Se na primeira vez eles não sabiam pelo que o amigo estava passando, agora eles procuram evitar ao máximo que Kakeru se isole, procuram fazer com que ele divida suas dores e seus pensamentos e procuram demonstrar os sentimentos que não foram demonstrados antes, na esperança de que através da amizade, do incentivo e da criação de memórias positivas, o sofrimento de Kakeru seja amenizado.

Apesar disso, nunca sabemos com certeza se eles estão tendo êxito e há sempre uma nuvem de dúvida e tensão, com a depressão sendo mostrada de forma muito realista: o deprimido sente culpa e remorsos por situações que fogem ao seu controle, enxerga cada pequeno fracasso com lente de aumento e pensa em desistir da vida não por ser egoísta, mas por acreditar que sua existência é um fardo inútil e todos os outros estariam melhor sem ele.

Mangá recomendadíssimo para discutir depressão e suicídio entre jovens. O tema é abordado com muita delicadeza e sensibilidade, evitando julgamentos morais e sentimentos de culpa. É uma obra muito tocante que além de discutir se seria desejável, e útil, mudar o passado, mostra a importância de prestar atenção ao amigo que se isola, que age estranhamente, e procurar fazer com que ele divida o seu fardo e não se sinta sozinho. 

A obra ganhou uma continuação (Orange: Mirai), que saiu antes como longa de animação, contando a mesma história sob o ponto de vista do personagem Suwa e ainda mostrando o que o futuro reservou para os personagens, dez anos após os eventos de Orange. É somente nesta continuação que a autora revela o que significa o título: uma metáfora com o crepúsculo, cuja cor é laranja. Orange também está disponível em anime e filme e eu recomendo tudo.



[Drops] #3: A série Napolitana, Elena Ferrante

[Drops] #4: Patti Smith: Só Garotos e Linha M | Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur

[Drops] 3 livros: O conto da Aia | Submissão | Pequenas grandes mentiras


Inaugurando aqui no blog a sessão [Drops], com mini-resenhas de três livros. São pequenas impressões de leituras que eu posto no Instagram e que achei que talvez valesse o registro no blog, que anda tão parado. Não tem pretensão de substituir o valor de uma resenha ou avaliação propriamente dita.

O Conto da Aia (The Handmaid's Tale), Margaret Atwood
Rocco; 368 páginas
Tradução: Ana Deiró

"Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos políticos das mulheres sejam questionados", escreveu Simone de Beauvoir e Margaret Atwood se incubiu da tarefa de imaginar um momento no tempo futuro em que os Estados Unidos, em guerra contra o terrorismo islâmico, se transforma em um regime totalitário neopentecostal, de forma que as mulheres são as principais atingidas pelo conservadorismo extremo, sendo divididas em categorias de acordo com a sua função na sociedade: mulher burguesa (Esposa de Comandante), barriga de aluguel (Aia), trabalhadora doméstica (Martha), mulher pobre (Econoesposa), doutrinadora (Tia).

A história se passa durante a transição da sociedade americana dos anos 80, então livre, e a tomada de poder pelos fundamentalistas. Tudo é relatado em forma de diário por uma Aia cujo nome não chegamos a saber, alternando entre a vida perdida no passado e o seu momento presente. Em determinados pontos desconcertantes, Atwood faz paralelos entre ações feministas da época, como uma fogueira feita para queimar revistas eróticas, ou as críticas às revistas femininas e um mundo em que nem as revistas existem mais e nem as mulheres têm permissão para ler ou escrever o que quer que seja. Se antes as cantadas de rua eram ruins, agora as mulheres andam cobertas e muito mal podem trocar palavras entre si, menos ainda com homens, com a justificativa de que assim elas estão seguras e são respeitadas. Enfim, um aceno para o fato do quanto qualquer radicalismo pode ser perigoso e levado ao extremo quando apropriado de maneira distorcida. Um momento em especial, quando mulheres são incitadas a linchar um suposto estuprador, é de gelar a espinha, demonstrando como é fácil agir exatamente da forma opressora a qual você mesma está submetida. O mais triste é que, evocando Beauvoir mais uma vez, tudo isto é possível graças à cumplicidade das próprias mulheres que podem ter algum tipo de poder sobre as outras. Nesta sociedade profundamente patriarcal, há uma espécie de organização matriarcal em que as mulheres oprimem e controlam umas às outras. Para o seu próprio bem!

Diferente da série, no livro os homossexuais não têm muito destaque e são mencionados pontualmente. A abordagem aqui é totalmente voltada para a perda dos direitos femininos -- um gay no armário ainda poderia estar em uma situação menos opressora comparado a maioria das mulheres da história. Também não há muita representatividade negra, o que faz sentido devido à época em que foi escrito: era inimaginável pensar em um governo totalitário que considerasse o bastante negros para altos cargos ou mesmo aias de família.

Uma distopia perturbadora, que toda mulher deveria ler.

Submissão (Soumission), Michel Houellebecq
Alfaguara; 264 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar

Talvez eu não devesse ter lido esse livro após "O conto da aia" porque o machismo e a apatia aqui tiveram um efeito muito mais brutal. Em um primeiro momento, não captei as intenções de Houellebecq até entender de fato sobre o que se tratava: a alienação e acomodação da intelectualidade ocidental, facilmente seduzida com vantagens como dinheiro e sexo, que levaria a sociedade europeia em direção ao suicídio cultural. Ou seja, a submissão aqui aos valores islâmicos não é forçada, mas voluntária. Ou ao menos se dá por omissão.

O personagem principal, François, representa, como seu nome sugere, a sociedade francesa. Absorto em seu campo de trabalho, ele dá pouca importância ao que acontece a seu redor. De humor depressivo, apático e anestesiado, François está muito mais preocupado em conseguir manter uma vida afetiva e sexual ativa do que com a política de seu país. São as estudantes dos primeiros anos que mais ocupam sua atenção. E é bem desagradável não apenas ler como o protagonista se refere às mulheres, como a própria construção das personagens femininas, que não passam de projeções de fantasias masculinas: a ex, muitos anos mais jovem, por quem ele ainda nutre sentimentos e que aparece de repente em sua casa, com roupas provocantes e já pronta para o sexo (ainda que seja difícil de conceber isso, principalmente porque no dia seguinte ela vai almoçar com os pais, provavelmente vestida daquela maneira); a professora com anos de experiência, orientadora de doutorandos que, em um jantar em sua casa, não profere nenhuma opinião sobre nada, se limitando a trazer "pratos deliciosos" e por aí vai. Não é acidental: mais para frente, iremos ver duas mulheres ocupando as mesmas posições de fantoche sexual e cuidadora dedicada, mas em outro contexto, como esposas de um membro do partido da Fraternidade Muçulmana, o que nos leva a pensar que o papel das mulheres no imaginário masculino seja ele de onde for, não muda.

O livro é provocativo, controverso e, às vezes, chato. Combinando esta leitura com a de "O conto da aia", o que fica claro é que em qualquer regime autoritário as verdadeiras submissas serão as mulheres. Sem direitos e funcionando como moeda de troca.

Pequenas Grandes Mentiras (Big Little Lies), Liane Moriarty
Intrínseca; 400 páginas
Tradução: Adalgisa Campos Silva

É um thriller que trata de aparências e julgamentos sociais, com diálogos um pouco sofríveis e alguns clichês de gênero. O que mais me incomodou foram os recursos tão óbvios de tentar despistar o leitor que tiveram o efeito contrário. O grande suspense que permeia a história, sobre quem é o personagem assassinado e quem foi o autor do crime, pode ser deduzido com facilidade pelo leitor muito antes da revelação.

Por outro lado, ela acerta bem na forma como mostra o que se passa no interior das personagens, levando o leitor a entender a mente daquelas mulheres, cada uma lidando com fantasmas diferentes. Também gostei bastante da forma como retrata a dinâmica dos relacionamentos abusivos e a violência doméstica. Um dos pontos principais é que qualquer mulher, por mais bem-sucedida, esclarecida e rica, está sujeita à violência de homens aparentemente cativantes, esclarecidos e bem-sucedidos.

A escrita não é muito envolvente, mas a abordagem é boa e deu origem a uma série de TV que vai direto ao assunto e, na minha opinião, melhora os problemas da narrativa. Vale mais ver a série que ler o livro. 

[Drops] #2: Erased | Ao Haru Ride | Orange
[Drops] #3: A série Napolitana, Elena Ferrante
[Drops] #4: Patti Smith: Só Garotos e Linha M | Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur

PLAF: produção autoral e diversidade temática nos quadrinhos

Capa: Lu Cafaggi


Paulo Floro, meu editor na Revista O Grito!, se uniu a (ótima) Carol Almeida e Dandara Palankof na edição de uma nova revista sobre quadrinhos, que tem como foco a produção autoral e a diversidade temática, abordando desde autores brasileiros até produções estrangeiras -- a revista PLAF.

Fiquei muito feliz por ter sido convidada a participar do primeiro número da revista, escrevendo uma coluna para a seção HQPÉDIA, que se propõe a tratar de grandes nomes dos quadrinhos brasileiros, inclusive resgatando nomes esquecidos.

Em meu texto, que não será reproduzido aqui no blog, falo sobre Maria Aparecida Godoy, a Cida Godoy, uma das pioneiras nos quadrinhos brasileiros. Cida Godoy era roteirista de histórias de terror e começou sua carreira resgatando histórias folclóricas que ouvia das pessoas no campo, transformando em histórias assustadoras como as que ouvia no rádio com a família quando pequena. Ela foi premiada em 1996 com o prêmio Angelo Agostini na categoria mestre, mas se afastou do universo dos quadrinhos e hoje realiza trabalho com artesanato, voltado para o resgate das raízes africanas. Foi muito bacana poder fazer o resgate da memória de uma artista que ela própria parece destinada a resgatar memórias.



A revista PLAF já está disponível para compra online (aqui) e em pontos de vendas em São Paulo, João Pessoa, Recife e Curitiba. Para acessar o hotsite da revista, clique aqui.

Abaixo, reproduzo o release de lançamento da revista, com informações sobre em quais pontos de venda ela pode ser encontrada.



Plaf: uma revista brasileira sobre quadrinhos
Publicação pernambucana estreia com HQs inéditas de Lu Cafaggi, João Lin, Caio Oliveira, Raoni Assis e matérias sobre LGBTs nos quadrinhos, a saga da revista Ragu, um papo com André Dahmer e muito mais.

“O mundo dos quadrinhos é o mundo todo”. É com esse mote que chega às comic shops a Plaf, revista brasileira sobre quadrinhos com foco na produção autoral e na diversidade temática, abordando desde autores brasileiros até produções estrangeiras. A cada edição, a publicação bimestral trará reportagens, entrevistas, resenhas, matérias e HQs inéditas. O número de estreia traz um ensaio sobre a representatividade LGBT nas histórias em quadrinhos hoje. A capa é da quadrinista mineira Lu Cafaggi.

A revista tem o incentivo do Funcultura - Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado de Pernambuco.

 A Plaf nasce com a proposta de ser um veículo crítico de divulgação do atual momento da produção autoral de quadrinhos no Brasil. Editada por Carol Almeida, Dandara Palankof e Paulo Floro, a publicação espera mostrar os quadrinhos como uma arte plural e inquieta, que dialoga com questões importantes do mundo de hoje. “Queremos mostrar que a produção criativa das HQs atuais não se enquadra em um só nicho”, explica Dandara.

O Brasil vive hoje um momento prolífico nos quadrinhos, com diversas novas editoras e eventos especializados espalhados pelo país. Mas faltam publicações impressas que divulguem e comentem essa produção.

Este primeiro número traz uma entrevista com o quadrinista André Dahmer (Malvados), hoje um dos autores que melhor comentam esses tempos de instabilidade política (e emocional) do Brasil. Traz também uma análise sobre os ciclos produtivos das HQs brasileiras e seu atual cenário. Tem ainda um infográfico sobre as andanças de Tintin pelo mundo e uma coluna sobre Maria Aparecida Godoy, uma das primeiras roteiristas brasileiras a ganhar destaque no mercado editorial. “Nossa ideia é produzir uma revista que fale simultaneamente de como os quadrinhos contemporâneos dialogam com o mundo ao redor, sem esquecer a necessidade de preservar a memória da própria história das HQs”, segundo Carol.

Entre os interesses da publicação está a valorização da produção pernambucana e nordestina nos quadrinhos. Neste número, a Plaf traz uma reportagem sobre a Ragu, importante publicação de quadrinhos de Recife. Criada por João Lin e Mascaro nos anos 1990, a revista trouxe inovações estéticas e experimentações na linguagem dos quadrinhos.

Plaf também trará a cada edição HQs inéditas e exclusivas. Nesta edição teremos uma delicada HQ delicada deLu Cafaggi, uma aventura da brasiliense Renata Rinaldi e uma obra poética do pernambucano João Lin. JáRaoni Assis traz, ao lado de Rodrigo Acioli, uma história sobre o Ocupe Estelita, movimento que questiona a especulação imobiliária em uma área histórica do Recife. Fechando a edição, uma sátira ao nosso atual momento político, pelo quadrinista piauiense Caio Oliveira.

Plaf será vendida em comic shops no Recife, João Pessoa, São Paulo e Curitiba, mas também poderá ser adquirida em nossa loja virtual no Facebook e na loja online da Ugra Press. "Esperamos fazer a revista circular por mais lugares e instigar mais pessoas a conhecer os quadrinhos como uma arte popular. Por isso nossa preocupação desde o início em estabelecer um preço acessível para uma publicação de boa qualidade ", afirma Paulo Floro.

Plaf #1 tem 60 páginas, tamanho 21x28cm, papel couché 90g e custará R$ 15.

O Grito!
A Plaf é uma iniciativa da Revista O Grito!, site especializado em cultura pop e arte com sede no Recife. A publicação, no entanto, tem projeto editorial e edição independentes. A ideia é que outras publicações sejam lançadas, sempre tendo como proposta a valorização da cena independente.

Serviço
PLAF #1
Agosto/Setembro de 2017
Especificações: Formato 21x28cm, capa papel couché 170g com verniz total, miolo papel couché 90g, grampeada.
ISSN: 2527-0281
Preço: R$ 15

PONTOS DE VENDA:
RECIFE:
Fênix Geek House
Rua Conselheiro Portela 665 - Espinheiro
Tel: (81) 3268-2536

Banca Guararapes
Av. Guararapes 223 - Centro
Tel: (81) 3224-5842

Bogart Café
R. Afonso Pena 96 - Santo Amaro
Tel:: (81) 3040-2243

EV Store
Rua Conselheiro Portela 417 - Espinheiro
Tel: (81) 3204-0973

JOÃO PESSOA
Comic HouseAv. Nego 255 - Tambaú
Tel: (83) 3227-0656

SÃO PAULO
Ugra Press
Rua Augusta 1371 - Loja 116
Tel: (11) 3589-5459
GibiteriaPraça Benedito Calixto 158 - 1o Andar – Pinheiros
Tel: (11) 3167-4838

CURITIBA
Itiban Comic Shop
Avenida Silva Jardim 845
Tel: (41) 3232-5367

VENDA ONLINE

Entrevista com Mikaelly Andrade: o erotismo é enriquecedor para a mulher

Ilustração de Ana Novaes para o zine "Alguns versos pervertidos..."



É muito difícil fazer literatura erótica sem escorregar no mau gosto e na pornografia barata; muitos escritos do gênero acabam parecendo material digno de revistinha de banca de jornal. Em seu primeiro livro, Descompasso (Independente)disponível gratuitamente em seu siteMikaelly Andrade, poeta natural de Quixeramobim, consegue oferecer uma poesia erótica inspirada, sensual, carregada de simbolismos femininos, algumas vezes até mordaz. Mas não se restringe a isso.
Na primeira parte, intitulada “Palavra”, os poemas versam sobre sentimentos. Há muita desilusão, muito sufoco, muita resignação. A imagem que transmitem é de alguém que se mostra controlada por fora quando interiormente vive um turbilhão de medo, dúvida, insegurança e também de amor. São poemas de um certo vazio, de sentimentos mantidos pra dentro, de abandono e necessidade de renascimento em alguns momentos lembram o trabalho da poeta mineira Ana Martins Marques. Em “Palavra”, os poemas ressoam como aquele momento que vem depois do caos: ainda perplexa, após ter perdido tudo, a poeta não tem outra escolha se não a de recomeçar.
Já na segunda parte, “Corpo”, os poemas celebram o prazer e o gozo feminino, sem vergonha e sem culpa. Tratam do êxtase quase com reverência, mas não se restringem somente à celebração e procuram lembrar que nos jogos eróticos muitas vezes as mulheres ainda são vistas como acessórios para o prazer masculino — o sexo pode tanto ser um momento de poder como de submissão. Na poética de Mikaelly há a forte presença das imagens do corpo, da boca, do material, do físico. Também da voz e do estremecimento. “Palavra e corpo” dá nome a um de seus poemas e não poderia ser melhor definição sobre a poesia da autora cearense.
Além de Descompasso, a autora tem em seu portfólio a participação na Antologia de Contos Literatura BR (Editora Moinhos, 2016), o zine Alguns Versos Pervertidos e Outros Indecorosos (Independente), colaborações em publicações literárias e os projetos Escritoras Cearenses e Mulheres na Literatura. Por e-mail, Mikaelly Andrade conversou com a Revista O Grito! sobre o seu trabalho e os primeiros passos de sua carreira.

Geralmente escritores têm o histórico de escrever desde muito jovens. Eu imagino que com você não tenha sido diferente. Quando foi que você passou a valorizar seus escritos enquanto expressão artística e resolveu se assumir escritora? E o que fez você decidir que era o momento de tirar seus escritos da gaveta e começar a publicar?
A verdade é que eu morria de preguiça de fazer uma redação! Na escola, até o segundo ano (já com dezessete), eu não tinha interesse pela arte da escrita e não consumia literatura com afinco. Era um livro aqui, outro acolá, sem compromisso. As minhas leituras eram por entretenimento. Eu escrevia na adolescência, mas era em diário. Eu utilizava a escrita como um remédio para as minhas crises existenciais de adolescente, não levava a sério como literatura. A palavra até hoje é a minha cura.
Quando fiz meu primeiro blog em 2009, foi que me veio à consciência que era isso que eu queria. Muito antes, pela ligação forte que eu tenho com a palavra eu desejava ser professora de Português, eu já havia decidido isso quando fazia a sexta série (risos). Mas aí foram nascendo os blogs e junto deles um amor e uma necessidade imensa de escrever, mesmo que eu não chegasse a publicar depois. Eu tinha a mania, digamos, de jogar no lixo todos os meus textos, tanto que não tem nenhum blog meu anterior na internet, eu deletei todos.
A minha insegurança fez (e ainda faz) eu desvalorizar (e muito) minha escrita, o que me dá a certeza de que eu devo continuar são os momentos em que eu “morro” quando não escrevo. Já trabalhei em várias profissões, porém nenhuma me acolheu, eu sempre me sentia frustrada por estar fazendo outra. Aos poucos fui percebendo e tomando coragem para enfrentar medo, insegurança e timidez e fazer o que eu realmente amo.
Como funciona o seu processo criativo?
Não tenho nenhum método de criação. As ideias surgem das cenas do cotidiano, de uma matéria no jornal, da cena de um filme, de uma música, de uma palavra, de um sorriso, das dores que sentimos, de tudo. Reservo, quando posso e não estou muito cansada, a madrugada para escrever, pois todas as anotações são feitas nos intervalos de tarefas domésticas, de brincadeiras com o meu filho, da interrupção de um sonho e por aí vai! Uma vez li algo que dizia que a madrugada é amiga da mãe artista e é verdade viu!
Antes de Descompasso você lançou Alguns Versos Pervertidos e Outros Indecorosos, que agora ganhou o status de zine. Houve alguma insatisfação com o trabalho?
Não. O “alguns versos…” foi um experimento, como eu não tinha publicado nada parecido eu quis ver como seria a aceitação. Ele ganhou esse status de zine por causa da edição revisitada que está disponível no meu site agora, aquela primeira já era. Não houve nenhuma insatisfação, pelo contrário, “alguns versos…” me aproximou mais dos meus leitores e me trouxe muito felicidade e certeza para continuar.
Falando sobre o Descompasso, em um primeiro momento, ele foi disponibilizado na íntegra em uma longa página de blog. O que te levou a tomar uma decisão tão inusitada de publicar um livro nesse formato?
A possibilidade de ser mais lida. Eu quis facilitar as coisas, tanto pra mim quanto para o leitor. Eu decidi disponibilizar o livro de uma forma que o leitor não teria trabalho algum, era só entrar na página no blog e pronto! Recentemente disponibilizei para download também, assim a leitura poderá ser feita de forma off-line. Outro motivo que me fez optar por esse formato, foi o fato dos blogs terem servido como cadernos de exercícios de escrita pra mim e isso me trouxe proximidade com algumas pessoas que liam meus escritos e encorajavam-me a continuar.
Primeiro livro oficialmente lançado: quais são os planos que você tem para ele e para a sua carreira a partir de agora?
Para o Descompasso eu desejo que ele chegue ao maior número de leitores possível! Quero me organizar melhor para poder dedicar mais tempo a minha escrita, que pra mim vai muito além de um hobby. Eu continuo escrevendo poemas, alguns eu publico no blog ou no Instagram, outros ficam guardados; além dos poemas, estou revisando uns contos que eu tinha arquivado. Estou com a pretensão de reuni-los em um volume para publicação, desta vez quero me associar a uma casa editorial independente.
O zine “Alguns versos pervertidos…” é todo baseado em poesia erótica – algo presente também em “Descompasso”. Pode falar um pouco sobre a sua relação com a arte erótica e qual a importância do erotismo para você? Esse é um gênero que você pretende continuar explorando?
Eu quis trabalhar em poemas eróticos para me ajudar a quebrar preconceitos que eu tinha em relação à mulher com o sexo, e foi muito importante por que eu conseguir desconstruí-los e pude perceber o quão importante é confrontar o sistema que impede que mulheres explore sua sexualidade. Eu quero sim continuar explorando esse gênero, o erotismo é um assunto enriquecedor, tanto como tema para poemas quanto para crescimento social mesmo, é algo libertador em vários sentidos.
Quais autoras e autores eróticos inspiram você? Você percebe alguma diferença entre o erotismo escrito por um homem daquele feito por mulheres?
Com certeza Anaís Nïn e Hilda Hilst! E conheci recentemente Seane Melo, que escreve contos eróticos no Médium.
Sim, o erotismo escrito por homens é geralmente aquele em que a mulher não passa de um objeto, um acessório feito apenas para saciar a vontade masculina. Já o erotismo escrito por mulheres revela uma mulher que explora sua sexualidade descobrindo seu corpo e seus desejos. Claro que não vou generalizar, não li todos os livros de literatura erótica, mas estamos fartos de saber que homem geralmente objetifica a mulher, seja num poema, num conto, num romance, num filme e por aí vai.
Voltando ao “Descompasso”, muitos dos poemas flertam com a desilusão, o sufoco e a resignação. E embora a sua escrita não faça eco ao subjetivismo de Clarice Lispector, acho que há uma similaridade, no sentido de serem textos que começam falando de atividades corriqueiras, como por exemplo “troquei os móveis de lugar” e de repente há um arroubo. Você pode falar um pouco a respeito da construção dessa estrutura?
Bom, meus poemas são um arroubo para mim, então, sinceramente não sei como te explicar. Essa “estrutura” que você me pergunta não é algo que eu tenha arquitetado, sabe?! Por isso repito tantas vezes que sou uma amadora! rsrs
Além do erotismo, os temas obscuros permeiam seus escritos. Por exemplo, contos como “A Sombra” trazem cenas de abuso sexual, enquanto que em “Perdi você de vista ao anoitecer” e na crônica “Tentativas de ser X estar sendo” o assunto presente é o suicídio. O que te atrai nesses temas?
A realidade. “A sombra” eu escrevi baseado numa matéria que eu li no blog da Lola Aronovich. Já o microconto e a crônica que você cita tem o suicídio como tema por ser um assunto que está presente na minha vida e por eu acreditar que é algo que deve ser escrito sobre, que deve ser lido e deve ser conversado. São dois assuntos extremamente importantes e que causam muita dor, por isso devem obrigatoriamente estar sempre em pauta.
Paralelo à sua carreira de escritora, você encabeça um projeto bem-sucedido no Instagram, o Mulheres na Literatura (ex-Leia Mais Mulheres). Pode comentar um pouco sobre como surgiu a ideia do projeto e qual a concepção dele? Qual o balanço que você faz do projeto desde sua criação até o momento? E quais os planos você tem para ele?
A ideia surgiu como um diário de leitura por causa da hastag #leiamulheres2014. Depois eu abri o projeto para receber textos de autoras como forma de incentivar tanto a escrita quanto a leitura de mulheres. O projeto funciona também como um guia de leitura, por causa dos posts que apresento autora e bibliografia. Já pensei muitas vezes em desistir dele, por causa de tempo, de questões pessoais e por motivos de enumerar prioridades, tanto que ele está meio abandonado, mas não o excluí definitivamente por ter muito carinho por ele. Recebi uma proposta de uma escritora muita querida e estamos desenvolvendo juntas, vamos ver se dá certo. Em breve veremos se sim ou não. Por enquanto, ele segue como um guia de leituras.
Outro projeto paralelo é o Escritoras Cearenses, dedicado a “resgatar vozes de mulheres cearenses que foram esquecidas, divulgar o trabalho de autoras pouco conhecidas e autoras já consagradas”. Pode falar um pouco também sobre a criação deste projeto e seus planos para ele?
O Escritoras Cearenses nasceu da necessidade que eu tenho de conhecer mais as autoras do meu estado. Primeiramente criei um clube que não deu muito certo por questões de organização e tempo, mas é algo que quero retomar em breve. Por enquanto sigo divulgando eventos literários e as minhas leituras no perfil do projeto na rede social Instagram (@escritorascearenses).
Que escritoras cearenses você descobriu através do projeto e poderia recomendar?
Carmélia Aragão, Sara Síntique, Ayla Andrade, Vitória Régia, Silvia Moura, Maria Thereza Leite. Essas foram algumas.
Por falar nisso, como é a cena literária no Ceará? Há espaço e oportunidade para autores iniciantes e independentes, especialmente mulheres?
Existe sim uma cena literária ativa em Fortaleza. Infelizmente eu não participo tanto quanto eu deveria, pois nem sempre posso frequentar os eventos literários, clubes de leitura e saraus que estão acontecendo. Acontece todo domingo a Feira Índice no Centro Cultural Dragão do Mar, que é um ótimo espaço para autores iniciantes e independentes, pois há estandes com zines e acontece uma troca entre autores, sem falar no sarau onde poetas têm oportunidade de apresentar seus poemas; por falar em sarau, há também o Sarau da B1 que acontece na periferia onde jovens se reúnem e se unem pela poesia. No Centro Cultural Banco do Nordeste, Talles Azigon coordena a Literatura em Revista, uma roda de bate-papo sobre literatura, livros e amor a esse universo. Sem falar no número de clubes de leituras que vêm aumentando, e aqui em Fortaleza já contamos com vários: #LeiaMulheres Fortaleza, Leituras da Bel, Dito&Feito, Leituras Feministas, Amor em-cena e o Clube de Leituras da Confeitaria Sublime. Esses espaços são ótimos para autores iniciantes e independentes usarem para apresentar seu trabalho, se aproximar e interagir com seu futuro leitor.
Em seu site, você dedica uma seção para entrevistas intitulada “Mulheres Extraordinárias Que Eu Conheci Através da Internet”, o que é uma ideia muito bacana! A primeira entrevistada foi a ilustradora Ana Novaes, cujas artes fazem um perfeito conjunto com suas poesias. Pode contar um pouco como vocês se conheceram e firmaram essa parceria?
Eu conheci a Ana através do perfil da também ilustradora, Iêda Carvalho, outra mulher talentosíssima que eu admiro muito e acompanho seu trabalho. Eu estava pesquisando por mulheres ilustradoras para trabalhar comigo na zine “Alguns versos pervertidos e outros indecorosos”. Bom, quando meu olhar repousou sobre a arte da Ana ele quis morar ali pra sempre! Daí eu segui o perfil dela, entrei em contato e falei sobre o meu projeto no qual eu queria trabalhar, ela foi muito atenciosa e topou na hora. A partir desse trabalho que fizemos juntas ficamos amigas. E agora estamos trabalhando juntas novamente em um novo projeto intitulado “There is no algebra”. “Um projeto sobre pessoas. 2+2=5. Uma poeta e uma desenhista criando para um mundo mais livre.”
Quem são as mulheres extraordinárias que você admira?
Nossa, muitas! Minha mãe com certeza é a primeira que vêm a minha cabeça. Um grande exemplo de força e sabedoria para mim! Minhas amigas (incluindo você!). Madonna, Frida Khalo, Nina Simone, Elza Soares, Jarid Arraes, Amy Winehouse, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Virginia Woolf, Laerte, Lola Aronovich, Clara Averbuck e Marina Colasanti. E ainda tantas outras que a memória falha é injusta por não lembrar.