Entrevista com Mikaelly Andrade: o erotismo é enriquecedor para a mulher

Ilustração de Ana Novaes para o zine "Alguns versos pervertidos..."



É muito difícil fazer literatura erótica sem escorregar no mau gosto e na pornografia barata; muitos escritos do gênero acabam parecendo material digno de revistinha de banca de jornal. Em seu primeiro livro, Descompasso (Independente)disponível gratuitamente em seu siteMikaelly Andrade, poeta natural de Quixeramobim, consegue oferecer uma poesia erótica inspirada, sensual, carregada de simbolismos femininos, algumas vezes até mordaz. Mas não se restringe a isso.
Na primeira parte, intitulada “Palavra”, os poemas versam sobre sentimentos. Há muita desilusão, muito sufoco, muita resignação. A imagem que transmitem é de alguém que se mostra controlada por fora quando interiormente vive um turbilhão de medo, dúvida, insegurança e também de amor. São poemas de um certo vazio, de sentimentos mantidos pra dentro, de abandono e necessidade de renascimento em alguns momentos lembram o trabalho da poeta mineira Ana Martins Marques. Em “Palavra”, os poemas ressoam como aquele momento que vem depois do caos: ainda perplexa, após ter perdido tudo, a poeta não tem outra escolha se não a de recomeçar.
Já na segunda parte, “Corpo”, os poemas celebram o prazer e o gozo feminino, sem vergonha e sem culpa. Tratam do êxtase quase com reverência, mas não se restringem somente à celebração e procuram lembrar que nos jogos eróticos muitas vezes as mulheres ainda são vistas como acessórios para o prazer masculino — o sexo pode tanto ser um momento de poder como de submissão. Na poética de Mikaelly há a forte presença das imagens do corpo, da boca, do material, do físico. Também da voz e do estremecimento. “Palavra e corpo” dá nome a um de seus poemas e não poderia ser melhor definição sobre a poesia da autora cearense.
Além de Descompasso, a autora tem em seu portfólio a participação na Antologia de Contos Literatura BR (Editora Moinhos, 2016), o zine Alguns Versos Pervertidos e Outros Indecorosos (Independente), colaborações em publicações literárias e os projetos Escritoras Cearenses e Mulheres na Literatura. Por e-mail, Mikaelly Andrade conversou com a Revista O Grito! sobre o seu trabalho e os primeiros passos de sua carreira.

Geralmente escritores têm o histórico de escrever desde muito jovens. Eu imagino que com você não tenha sido diferente. Quando foi que você passou a valorizar seus escritos enquanto expressão artística e resolveu se assumir escritora? E o que fez você decidir que era o momento de tirar seus escritos da gaveta e começar a publicar?
A verdade é que eu morria de preguiça de fazer uma redação! Na escola, até o segundo ano (já com dezessete), eu não tinha interesse pela arte da escrita e não consumia literatura com afinco. Era um livro aqui, outro acolá, sem compromisso. As minhas leituras eram por entretenimento. Eu escrevia na adolescência, mas era em diário. Eu utilizava a escrita como um remédio para as minhas crises existenciais de adolescente, não levava a sério como literatura. A palavra até hoje é a minha cura.
Quando fiz meu primeiro blog em 2009, foi que me veio à consciência que era isso que eu queria. Muito antes, pela ligação forte que eu tenho com a palavra eu desejava ser professora de Português, eu já havia decidido isso quando fazia a sexta série (risos). Mas aí foram nascendo os blogs e junto deles um amor e uma necessidade imensa de escrever, mesmo que eu não chegasse a publicar depois. Eu tinha a mania, digamos, de jogar no lixo todos os meus textos, tanto que não tem nenhum blog meu anterior na internet, eu deletei todos.
A minha insegurança fez (e ainda faz) eu desvalorizar (e muito) minha escrita, o que me dá a certeza de que eu devo continuar são os momentos em que eu “morro” quando não escrevo. Já trabalhei em várias profissões, porém nenhuma me acolheu, eu sempre me sentia frustrada por estar fazendo outra. Aos poucos fui percebendo e tomando coragem para enfrentar medo, insegurança e timidez e fazer o que eu realmente amo.
Como funciona o seu processo criativo?
Não tenho nenhum método de criação. As ideias surgem das cenas do cotidiano, de uma matéria no jornal, da cena de um filme, de uma música, de uma palavra, de um sorriso, das dores que sentimos, de tudo. Reservo, quando posso e não estou muito cansada, a madrugada para escrever, pois todas as anotações são feitas nos intervalos de tarefas domésticas, de brincadeiras com o meu filho, da interrupção de um sonho e por aí vai! Uma vez li algo que dizia que a madrugada é amiga da mãe artista e é verdade viu!
Antes de Descompasso você lançou Alguns Versos Pervertidos e Outros Indecorosos, que agora ganhou o status de zine. Houve alguma insatisfação com o trabalho?
Não. O “alguns versos…” foi um experimento, como eu não tinha publicado nada parecido eu quis ver como seria a aceitação. Ele ganhou esse status de zine por causa da edição revisitada que está disponível no meu site agora, aquela primeira já era. Não houve nenhuma insatisfação, pelo contrário, “alguns versos…” me aproximou mais dos meus leitores e me trouxe muito felicidade e certeza para continuar.
Falando sobre o Descompasso, em um primeiro momento, ele foi disponibilizado na íntegra em uma longa página de blog. O que te levou a tomar uma decisão tão inusitada de publicar um livro nesse formato?
A possibilidade de ser mais lida. Eu quis facilitar as coisas, tanto pra mim quanto para o leitor. Eu decidi disponibilizar o livro de uma forma que o leitor não teria trabalho algum, era só entrar na página no blog e pronto! Recentemente disponibilizei para download também, assim a leitura poderá ser feita de forma off-line. Outro motivo que me fez optar por esse formato, foi o fato dos blogs terem servido como cadernos de exercícios de escrita pra mim e isso me trouxe proximidade com algumas pessoas que liam meus escritos e encorajavam-me a continuar.
Primeiro livro oficialmente lançado: quais são os planos que você tem para ele e para a sua carreira a partir de agora?
Para o Descompasso eu desejo que ele chegue ao maior número de leitores possível! Quero me organizar melhor para poder dedicar mais tempo a minha escrita, que pra mim vai muito além de um hobby. Eu continuo escrevendo poemas, alguns eu publico no blog ou no Instagram, outros ficam guardados; além dos poemas, estou revisando uns contos que eu tinha arquivado. Estou com a pretensão de reuni-los em um volume para publicação, desta vez quero me associar a uma casa editorial independente.
O zine “Alguns versos pervertidos…” é todo baseado em poesia erótica – algo presente também em “Descompasso”. Pode falar um pouco sobre a sua relação com a arte erótica e qual a importância do erotismo para você? Esse é um gênero que você pretende continuar explorando?
Eu quis trabalhar em poemas eróticos para me ajudar a quebrar preconceitos que eu tinha em relação à mulher com o sexo, e foi muito importante por que eu conseguir desconstruí-los e pude perceber o quão importante é confrontar o sistema que impede que mulheres explore sua sexualidade. Eu quero sim continuar explorando esse gênero, o erotismo é um assunto enriquecedor, tanto como tema para poemas quanto para crescimento social mesmo, é algo libertador em vários sentidos.
Quais autoras e autores eróticos inspiram você? Você percebe alguma diferença entre o erotismo escrito por um homem daquele feito por mulheres?
Com certeza Anaís Nïn e Hilda Hilst! E conheci recentemente Seane Melo, que escreve contos eróticos no Médium.
Sim, o erotismo escrito por homens é geralmente aquele em que a mulher não passa de um objeto, um acessório feito apenas para saciar a vontade masculina. Já o erotismo escrito por mulheres revela uma mulher que explora sua sexualidade descobrindo seu corpo e seus desejos. Claro que não vou generalizar, não li todos os livros de literatura erótica, mas estamos fartos de saber que homem geralmente objetifica a mulher, seja num poema, num conto, num romance, num filme e por aí vai.
Voltando ao “Descompasso”, muitos dos poemas flertam com a desilusão, o sufoco e a resignação. E embora a sua escrita não faça eco ao subjetivismo de Clarice Lispector, acho que há uma similaridade, no sentido de serem textos que começam falando de atividades corriqueiras, como por exemplo “troquei os móveis de lugar” e de repente há um arroubo. Você pode falar um pouco a respeito da construção dessa estrutura?
Bom, meus poemas são um arroubo para mim, então, sinceramente não sei como te explicar. Essa “estrutura” que você me pergunta não é algo que eu tenha arquitetado, sabe?! Por isso repito tantas vezes que sou uma amadora! rsrs
Além do erotismo, os temas obscuros permeiam seus escritos. Por exemplo, contos como “A Sombra” trazem cenas de abuso sexual, enquanto que em “Perdi você de vista ao anoitecer” e na crônica “Tentativas de ser X estar sendo” o assunto presente é o suicídio. O que te atrai nesses temas?
A realidade. “A sombra” eu escrevi baseado numa matéria que eu li no blog da Lola Aronovich. Já o microconto e a crônica que você cita tem o suicídio como tema por ser um assunto que está presente na minha vida e por eu acreditar que é algo que deve ser escrito sobre, que deve ser lido e deve ser conversado. São dois assuntos extremamente importantes e que causam muita dor, por isso devem obrigatoriamente estar sempre em pauta.
Paralelo à sua carreira de escritora, você encabeça um projeto bem-sucedido no Instagram, o Mulheres na Literatura (ex-Leia Mais Mulheres). Pode comentar um pouco sobre como surgiu a ideia do projeto e qual a concepção dele? Qual o balanço que você faz do projeto desde sua criação até o momento? E quais os planos você tem para ele?
A ideia surgiu como um diário de leitura por causa da hastag #leiamulheres2014. Depois eu abri o projeto para receber textos de autoras como forma de incentivar tanto a escrita quanto a leitura de mulheres. O projeto funciona também como um guia de leitura, por causa dos posts que apresento autora e bibliografia. Já pensei muitas vezes em desistir dele, por causa de tempo, de questões pessoais e por motivos de enumerar prioridades, tanto que ele está meio abandonado, mas não o excluí definitivamente por ter muito carinho por ele. Recebi uma proposta de uma escritora muita querida e estamos desenvolvendo juntas, vamos ver se dá certo. Em breve veremos se sim ou não. Por enquanto, ele segue como um guia de leituras.
Outro projeto paralelo é o Escritoras Cearenses, dedicado a “resgatar vozes de mulheres cearenses que foram esquecidas, divulgar o trabalho de autoras pouco conhecidas e autoras já consagradas”. Pode falar um pouco também sobre a criação deste projeto e seus planos para ele?
O Escritoras Cearenses nasceu da necessidade que eu tenho de conhecer mais as autoras do meu estado. Primeiramente criei um clube que não deu muito certo por questões de organização e tempo, mas é algo que quero retomar em breve. Por enquanto sigo divulgando eventos literários e as minhas leituras no perfil do projeto na rede social Instagram (@escritorascearenses).
Que escritoras cearenses você descobriu através do projeto e poderia recomendar?
Carmélia Aragão, Sara Síntique, Ayla Andrade, Vitória Régia, Silvia Moura, Maria Thereza Leite. Essas foram algumas.
Por falar nisso, como é a cena literária no Ceará? Há espaço e oportunidade para autores iniciantes e independentes, especialmente mulheres?
Existe sim uma cena literária ativa em Fortaleza. Infelizmente eu não participo tanto quanto eu deveria, pois nem sempre posso frequentar os eventos literários, clubes de leitura e saraus que estão acontecendo. Acontece todo domingo a Feira Índice no Centro Cultural Dragão do Mar, que é um ótimo espaço para autores iniciantes e independentes, pois há estandes com zines e acontece uma troca entre autores, sem falar no sarau onde poetas têm oportunidade de apresentar seus poemas; por falar em sarau, há também o Sarau da B1 que acontece na periferia onde jovens se reúnem e se unem pela poesia. No Centro Cultural Banco do Nordeste, Talles Azigon coordena a Literatura em Revista, uma roda de bate-papo sobre literatura, livros e amor a esse universo. Sem falar no número de clubes de leituras que vêm aumentando, e aqui em Fortaleza já contamos com vários: #LeiaMulheres Fortaleza, Leituras da Bel, Dito&Feito, Leituras Feministas, Amor em-cena e o Clube de Leituras da Confeitaria Sublime. Esses espaços são ótimos para autores iniciantes e independentes usarem para apresentar seu trabalho, se aproximar e interagir com seu futuro leitor.
Em seu site, você dedica uma seção para entrevistas intitulada “Mulheres Extraordinárias Que Eu Conheci Através da Internet”, o que é uma ideia muito bacana! A primeira entrevistada foi a ilustradora Ana Novaes, cujas artes fazem um perfeito conjunto com suas poesias. Pode contar um pouco como vocês se conheceram e firmaram essa parceria?
Eu conheci a Ana através do perfil da também ilustradora, Iêda Carvalho, outra mulher talentosíssima que eu admiro muito e acompanho seu trabalho. Eu estava pesquisando por mulheres ilustradoras para trabalhar comigo na zine “Alguns versos pervertidos e outros indecorosos”. Bom, quando meu olhar repousou sobre a arte da Ana ele quis morar ali pra sempre! Daí eu segui o perfil dela, entrei em contato e falei sobre o meu projeto no qual eu queria trabalhar, ela foi muito atenciosa e topou na hora. A partir desse trabalho que fizemos juntas ficamos amigas. E agora estamos trabalhando juntas novamente em um novo projeto intitulado “There is no algebra”. “Um projeto sobre pessoas. 2+2=5. Uma poeta e uma desenhista criando para um mundo mais livre.”
Quem são as mulheres extraordinárias que você admira?
Nossa, muitas! Minha mãe com certeza é a primeira que vêm a minha cabeça. Um grande exemplo de força e sabedoria para mim! Minhas amigas (incluindo você!). Madonna, Frida Khalo, Nina Simone, Elza Soares, Jarid Arraes, Amy Winehouse, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Virginia Woolf, Laerte, Lola Aronovich, Clara Averbuck e Marina Colasanti. E ainda tantas outras que a memória falha é injusta por não lembrar.

Leituras do trimestre #1


Embora não esteja mais atualizando o blog com a frequência de antigamente, gosto de fazer esse balanço com as livros lido no trimestre e reunir as resenhas e impressões das leituras que venho fazendo. Desde que resolvi não me inscrever mais em parcerias com editoras (tendo apenas minha parceria com a Intrínseca sendo renovada automaticamente, também não sei até quando), senti maior liberdade para ler o que eu realmente queria no meu tempo e na minha ordem, sem a pressão de ter que entregar textos. Dessa forma, é muito mais confortável para mim compartilhar minhas impressões no Instagram, deixando para me alongar aqui quando realmente sentir vontade.

No momento também decidi suspender as colaborações em blogs de terceiros regularmente. É um trabalho que gosto muito de fazer, mas meu foco no momento é outro então esse é um comprometimento que não posso manter com a frequência que mantinha.

Gostaria de estar lendo bem mais e também me empenhando mais no projeto de assistir um filme dirigido por mulher por semana, mas não está rolando. Ainda assim, este está sendo um ano muito produtivo intelectual e culturalmente, estou conseguindo selecionar e priorizar o que de fato me importa, me ensina ou me faz ter boas reflexões e participar de discussões produtivas.

Então, posso dizer que, até o momento, fiz somente leituras de boas a excelentes. No fim do ano comento os destaques e as (possíveis) decepções.

Se você quiser saber o que achei de cada um desses livros (e mangá), basta clicar na capinha.









A Bela e a Fera não é uma história sobre Síndrome de Estocolmo


Texto publicado no HuffPost Brasil

Desde que foi anunciada a versão live-action de A Bela e a Fera, longa de animação lançado pela Disney em 1991 e primeiro do gênero a ser indicado ao Oscar como Melhor Filme, foi aquecida a controvérsia ao redor do filme: para algumas pessoas, a história trata de um relacionamento abusivo e o romance entre a Bela e a Fera seria possível devido a Bela ter desenvolvido uma síndrome de Estocolmo em relação à Fera. Segundo as críticas, o relacionamento entre ambos partiria de uma enganosa noção de amor romântico e transmitiria uma mensagem perigosa, que levaria meninas a normalizarem situações de abuso moral em seus relacionamentos quando adultas, dizendo a elas que o amor seria capaz de modificar uma pessoa abusiva.

Esse tipo de interpretação costuma se basear em determinas premissas, a saber: uma Fera que toma Bela como prisioneira, uma heroína que enxergaria o lado bom de um homem aparentemente mau, um romance que redimiria a Fera e o transforma em lindo príncipe. Acontece que não é bem assim.

A Síndrome de Estocolmo

Antes de tudo, é necessário entender o que é a Síndrome de Estocolmo e como funcionam os relacionamentos abusivos.

A chamada Síndrome de Estocolmo ganhou este nome após um famoso caso de assalto a banco na cidade de Estocolmo em que o criminoso Jan-Erik Olsson e seus reféns conviveram durante seis dias e, durante este tempo, laços afetivos foram criados entre eles. Os reféns chegaram a proteger o assaltante com o corpo para que a polícia não atirasse nele e um deles chegou mesmo a afirmar: "confio plenamente nele, viajaria por todo o mundo com eles". Olsson era um assaltante peculiar: ele queria encerrar o assalto logo após receber o resgate e apesar de estar armado e mantendo seus reféns em cativeiro, em momento nenhum os intimidou de forma violenta, agrediu verbal ou fisicamente ou fez com que tivessem medo dele. Inclusive, após sua prisão, dois dos reféns chegaram a visitá-lo. Carismático, ele inclusive chegou a se casar na prisão e teve policiais como testemunhas. Não chegou a se envolver em mais nenhum crime após isso.

Apesar de Olsson não demonstrar ter as características de uma pessoa violenta, na época do episódio o criminologista Nils Berejot, que ajudou a polícia sueca a lidar com o assalto, achou que não era natural que os reféns tivessem se afeiçoado a seu raptor e levantou a hipótese de que eles estariam sofrendo de um mecanismo de defesa psicológico gerado pelo medo, em que a vítima amplifica qualquer atitude amigável de seu agressor na tentativa de se identificar com ele - e chamou esse mecanismo de defesa de Síndrome de Estocolmo. Hoje talvez seja possível afirmar que aquele homem de fato não era uma pessoa agressiva e que as vítimas talvez não estivessem mesmo com medo dele. Mas isso não significa que o transtorno psicológico não exista.

Os relacionamentos românticos abusivos

Segundo a psicologia, pessoas que sofrem abuso físico e/ou moral podem desenvolver o transtorno como uma maneira inconsciente de autopreservação. Por medo, a vítima acredita que não terá meios de sair daquela situação e passa a tentar não desagradar seu agressor, chegando ao ponto de passar a encará-la com simpatia. A vítima fica submetida a uma dependência física e emocional tão intensa, que passa a enxergar seu agressor como seu único protetor e amigo, muitas vezes sendo capaz de defendê-lo. Ela não percebe que a pessoa faz mal para ela. Em alguns casos o abuso é tão sutil que a pessoa oprimida não consegue perceber que está sendo manipulada e até encara seu agressor como alguém incompreendido e que todos que estão de fora não conseguem perceber que, no fundo, ele é uma boa pessoa. É muito comum ouvir de vítimas de relacionamentos românticos abusivos dizerem coisas como "você não entende, ele me ama!".

A vítima não se reconhece como alguém que sofre de um estresse psicológico, ela não aceita que esteja em um relacionamento abusivo e acredita que se tiver paciência, irá conseguir mudar o temperamento de seu agressor. Muitas vezes ela é levada pelo próprio agressor a pensar isso através da prática do gaslight, que acontece quando o agressor leva a sua vítima a acreditar que está distorcendo as situações na própria cabeça, que as coisas não são como ela acredita e se sentir culpada. Ela é levada a acreditar que exagera ou que está louca.

A dinâmica de um relacionamento abusivo exige um equilíbrio desigual de poder. A pessoa oprimida é colocada em várias situações de estresse por seu opressor: costuma ser levada a se afastar da família e dos amigos, ser impedida de sair ou trabalhar - em alguns casos não acontece um impedimento, mas a pessoa é deixada para fazer sozinha as atividades que não interessam a seu par e é levada a se sentir culpada por isso. Também costuma haver controle de horários ou exigência de provas, como a obrigação de mandar mensagens, fotos ou fazer telefonemas frequentes para confirmar que ela está onde disse que estaria. A vítima de um relacionamento abusivo é vigiada todo tempo, ela costuma sentir medo das consequências de suas atitudes frequentemente e evita falar com alguém sobre o que está acontecendo. Ela vive em estado de medo, vergonha e ameaças, chegando a ser agredida fisicamente em alguns casos. Quando tenta sair desta submissão, o agressor promete mudar de comportamento e a relação entra em clima de lua de mel. Para logo em seguida o ciclo recomeçar.

Como você pode ver, relacionamentos abusivos têm várias características de abuso de poder, agressão, manipulação e dependência emocional. Elementos que em "A Bela e a Fera" não existe.

A Fera não é um agressor

A fato de a Fera ser um animal está relacionada a um subgênero dos contos de fadas chamado "noivos animalescos" (animal bridegrooms, em inglês), em que de fato os animais encontram sua redenção através do amor de um ser humano. O que não significa que esses seres sejam ruins. O simbolismo desse tipo de história alude ao lado selvagem dos seres humanos, aquele lado obscuro que todos temos dentro de nós e que sem o contato humano adequado nos leva a um estado primitivo de animalização. Como conta Rodrigo Lacerda em sua introdução ao volume lançado no Brasil no ano passado pela editora Zahar, "neste tipo de narrativa, a trajetória do protagonista costuma envolver um encontro do humano com o poder ambíguo, assustador e fascinante do mundo fantástico, encontro do qual o homem ou a mulher sairá integralmente imbuído de generosidade, abertura de espírito e compreensão."

Jovens protagonistas provam sua pureza e afirmam o amor sobre todas as outras forças da natureza, mostrando-se capazes de redesenhar as fronteiras entre o humano e a dimensão fantástica do mundo. (...) Por sua vez, o noivo ou a noiva animalesco de modo geral representa nosso lado selvagem, e o de nossos cônjuges -- aquele lado que, mesmo quando conhecemos, não podemos controlar.


Ou seja, a intenção não é romantizar o comportamento abusivo de um homem em relação à sua amante, mas propiciar um confronto entre o humano e o animal, nem sempre deliberadamente, e necessariamente, ruim. Para fazer uma comparação, basta se lembrar de um outro conto, o do Barba Azul - este sim, um personagem violento, abusivo e mau. Em Barba Azul, o homem é temido por todos, mas finge ser uma boa pessoa para se casar com uma mocinha. Ele permite que sua esposa ande por todos os domínios de seu castelo, mas jamais abra uma determinada porta. Curiosa, ela abre a porta e descobre os ossos das antigas esposas de Barba Azul no armário. A sentença pela sua curiosidade e desobediência é a morte. Aqui temos de fato uma história sombria e aterrorizante, que culmina na morte do agressor.

Embora a Disney tenha tomado emprestada a proibição de entrar em determinada ala do castelo, coisa que não existe na história original da Bela e a Fera, qualquer possível semelhança entre as narrativas termina aí.

O romance original de Madame de Villeneuve e a inspiração da vida real

Escrita por Gabrielle Villeneuve, e mais tarde adaptada em conto educativo para crianças por Madame Jeanne-Marie de Beaumont, a história original de A Bela e a Fera é um romance voltado para o público adulto. Nela, o príncipe se torna uma Fera não como lição de humildade, mas devido a uma vingança cometida por uma bruxa que se apaixona por ele e não pode desposá-lo. Ele não se torna uma Fera por ser selvagem, mas sim para se tornar um pária da sociedade.

Uma das inspirações da vida real real pode ter sido a historia do espanhol Pedro González, nascido com hipertricose, a chamada "síndrome do lobisomem". Pedro não recebeu educação formal até os 10 anos de idade, quando foi vendido pelo próprio pai ao rei Carlos I da Espanha. Tendo o navio em que viajava sido atacado por piratas franceses, estes o mandaram para o rei Henrique II, da França, como animal de estimação - naquela época, possuir criaturas provenientes de terras distantes era simbolo de status e fonte de prestígio para seus "proprietários".

Nos domínios de Henrique II, o rei francês resolveu submetê-lo a uma experiência para saber se ele poderia ser humanizado. Assim, Pedro ganhou o nome latino de Petrus Gonsalvus, foi vestido com roupas nobres e recebeu educação sofisticada. Surpreendendo a corte, Pedro aprendeu a ler, a escrever, a falar várias línguas e agir com etiqueta - afinal, era um ser humano como qualquer outro. Dessa forma, o rei passou a pagá-lo para que prestasse serviços diplomáticos junto a estrangeiros na corte. Com a morte do rei, a viúva Catarina de Médici resolveu casá-lo com uma bela mulher -- curiosidade era saber se o casal poderia gerar filhos e como eles nasceriam. A noiva, que desmaiou ao avistar Pedro pela primeira vez, acabou se acalmando devido aos bons modos do marido e viveram em uma relação amorosa e um bom casamento, segundo conta a história.

A partir disto, fica mais fácil entender como a Fera é uma metáfora para uma pessoa marginalizada pela sociedade e vista como uma besta, neste caso, devido a uma condição física atípica. Quando a bruxa transforma o príncipe em Fera, ela não o condena a ser mau nem grosseiro, nem ele era nada disso antes da maldição. Ela retira dele as características físicas humanas e ainda o obriga a se mostrar como uma pessoa burra, justamente porque se Bela descobrir que na verdade a Fera é um ser inteligente e refinado, pode se afeiçoar a ele. A única coisa de terrível que a Fera possui é sua aparência e Bela é a mulher predestinada a enxergar o ser que existe além disso, o que ela de fato faz, devido a sua natureza piedosa e compreensiva.

A Fera no filme da Disney

No filme, a Fera de fato é um ser menos conformado e muito mais temperamental e irascível do que na história original, o que faz mais sentido para o público dos dias de hoje - ora, se se tratasse apenas de uma condição física diferente, como é o caso, por exemplo, de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, o filme não veria confronto algum entre a Bela e a Fera e o público encararia com maior naturalidade o romance entre os protagonistas. Além disso, é muito pouco verossímil que uma pessoa condenada a perder suas características físicas humanas e que além disso seja obrigada a viver isolada de sua família, de sua corte e de qualquer outro ser humano não se transforme em uma criatura irada e amargurada.

E é justamente isto que a Fera da Disney é: um ser frustrado. É uma criatura inflexível, que fica ofendido e condena à prisão o pai de Bela por considerá-lo um ladrão, simplesmente devido ao roubo de uma rosa. Apesar disso, é importante notar que a Fera jamais machuca o pai de Bela. Pelo contrário, ele oferece comida e hospitalidade sem interesse nenhum em troca, porque ele nem mesmo sabe quem aquele homem é.

No filme, quando a Bela chega e assume o lugar do pai, ela toma essa decisão sozinha, não é persuadida por ninguém a isso, o que demonstra que a Fera não tinha intenção de manipulá-la. Um outro detalhe que dá dicas sobre o caráter da Fera é a sua relação com seus empregados, transformados em objetos falantes: nenhum deles leva muito a sério os arroubos de raiva de seu patrão, nenhum deles teme por sua integridade ou quer deixar aquele lugar. Seus empregados o respeitam e o amam, e são capazes de desobedecê-lo sem temer consequências mais graves, sabendo que ele será capaz de ouvi-las após uma discussão. Isso demonstra que há um lado razoável naquela criatura, uma bondade que ele não se permite mais demonstrar por ninguém.

E é importante que a Fera não seja uma criatura dócil e submissa, que se revolte ao ser retirada de uma sociedade da qual não pode mais pertencer. Sabemos que ele tem razão: assim como Quasímodo, que é ridicularizado pelo povo quando notam que ele não veste uma máscara, a primeira reação do povo da fictícia Villeneuve é acreditar que aquela Fera é um monstro. Se antecipando ao julgamento que a sociedade fará dele - e demonstrando acreditar ele mesmo nisso - a Fera entra no papel de ser que deve ser temido. Um mecanismo de defesa gerado pela raiva, do qual ninguém está imune.

Segundo o psicanalista Bruno Bettelheim, é importante que existam personagens como a Fera nas histórias infantis. Em A psicanálise dos contos de fadas (Paz e Terra), ele diz sobre como é importante que a criança perceba que ninguém é inteiramente bom e aprenda a lidar com isso de forma menos ansiosa:

Existe uma recusa difundida em deixar as crianças saberem que a fonte de tantos insucessos na vida está na nossa própria natureza – na propensão de todos os homens para agir de forma agressiva, não social, egoísta, por raiva e ansiedade. Em vez disso, queremos que nossos filhos acreditem que, inerentemente, todos os homens são bons. Mas as crianças sabem que elas não são sempre boas; e com frequência, mesmo quando são, preferiam não sê-lo. Isto contradiz o que lhes é dito pelos pais, e portanto faz a criança sentir-se um monstro a seus próprios olhos

A dinâmica entre a Bela e a Fera

A chegada de Bela deixa os empregados do castelo em polvorosa, mas não a Fera. Ciente da aparência que exibe, ele acredita que as chances da Bela encará-lo como um ser humano são mínima e que mulher nenhuma se atrairia por uma criatura como aquela. Para ele, Bela é um incômodo. Apesar disso, ele é encorajado por seus amigos a tentar interagir com ela, tarefa na qual falha miseravelmente. Humilhado, ele apela para o abuso de poder: se não vai jantar comigo, então vai morrer de fome.

Ordem que a Bela prontamente não obedece. Quando questionada sobre Bela sofrer ou não de Síndrome de Estocolmo, Emma Watson é perspicaz em sua resposta: "Bela discorda e discute constantemente com a Fera. Ela não apresenta nenhuma das características de alguém com Síndrome de Estocolmo porque ela mantém sua independência, ela mantém aquela independência da mente. (...) Ela devolve na mesma moeda. Ele bate a porta, ela também bate. Há um desafio: 'Você está pensando que eu vou sair e jantar com você e ser sua prisioneira - de forma alguma".

Ou seja, Bela não tem medo de desagradar a Fera e não se deixa intimidar por suas ameaças. Ela não vê nenhum motivo para passar a gostar dele e ele, por sua vez, também não demonstra nenhum interesse espontâneo por ela. Ele não tem intenção de obrigá-la a ficar com ele de forma romântica -- para a Fera, Bela é uma prisioneira pagando a pena de seu pai. O movimento que faz de tentar jantar com a moça é um plano de seus empregados que, por algum motivo, acreditam que a Bela será capaz de gostar da Fera, se for tratada da forma correta.

Apesar de ter um quarto para si, ganhar vestidos e receber os melhores cuidados, Bela não acredita que a Fera é uma pessoa boa por isso. Ela não se deslumbra e não aceita qualquer migalha de gentileza: ao contrário, resolve fugir. Em sua fuga, é atacada por lobos e a Fera aparece de repente, salvando a sua vida. Na luta com os lobos, a Fera fica gravemente ferida e pode morrer se for deixada lá. Bela tem duas opções: partir e deixar a Fera à própria sorte ou retribuir o que a Fera fez por ela, mas acabar voltando para o cativeiro. É aí que o relacionamento entre a Bela e a Fera muda: quando a consciência de Bela fala mais alto e ela não consegue deixar com que a criatura que salvou a sua vida morra. E é quando a Fera percebe que aquela pessoa não é como as outras e, apesar de tudo, foi incapaz de deixá-lo morrer. Então os dois baixam suas guardas. E se tornam, antes de qualquer coisa, amigos.

Perceba que a Bela em momento algum se afeiçoa à Fera devido ao estresse, como um mecanismo de defesa engatilhado pelo medo, pela intimidação ou pela manipulação. Logo que ambos salvam as vidas um do outro, a Fera deixa toda a sua grosseria de lado para conviver em harmonia com a Bela, permitindo que ela explore o castelo, dando sua biblioteca de presente à ela e deixando com que faça o que ela bem quiser. Ela faz companhia a ele e, de certa forma, ele também faz companhia a ela. Porque o que a Bela percebe não é que o amor e a gentileza podem mudar uma pessoa abusiva - o que ela nota é que aquela criatura não é verdadeiramente violenta, para começo de conversa, e que ambos são outsiders, marginalizados pela sociedade da época. Para uma inventora e leitora voraz, a imagem da biblioteca (não decorativa, a Fera de fato leu muitos daqueles livros e ambos debatem sobre eles) é eloquente: Bela se sente mais compreendida por uma Fera do que pelas pessoas provincianas de sua aldeia, que a encaram, riem e apontam para ela.

Mas ainda há uma dinâmica de poder: Bela pode fazer o que quiser dentro dos limites do castelo e permanece sendo prisioneira da Fera, estando à mercê do humor e das decisões da criatura. E é quando ocorre este momento no filme: a Fera, esperançosa, pergunta à Bela se ela acha que conseguiria ser feliz vivendo no castelo. Bela responde que não sabe, por que como ela poderia ser feliz em um lugar onde não é livre? Se dando conta disso, a Fera então a liberta.

As crianças devem ser capazes de acreditar que é possível atingir uma forma de existência mais alta, se dominam os graus de desenvolvimento que isso requer. As histórias contando que isso, além de ser possível, é o provável, têm uma tremenda atração para as crianças, porque combatem o temor sempre presente de que não conseguirão fazer essa transição ou de que perderão muito no processo.

A metáfora do outsider e a outra história da vida real

Se voltarmos ao conto do Barba Azul, citado anteriormente, veremos que apesar da sua fama de mau, ele finge ser um homem bom para conquistar a simpatia da sua noiva e da família dela, até o momento em que seus assassinatos são descobertos. Esta costuma ser a dinâmica de relacionamentos abusivos: a vítima está lidando com um narcisista, com alguém dominador que normalmente faz uma boa figura fora do relacionamento, mas que esconde diversos esqueletos em seu armário.

A Fera de A Bela e a Fera é quase o contrário: age como uma criatura perigosa que deve ser temida, mas que na verdade é uma pessoa sensível e com um lado bom submerso, já que nunca encontrou alguém que não tivesse o tratado como uma aberração, desde que foi condenado pela maldição.

A mensagem aqui não se trata de dizer que há um lado bom em pessoas aparentemente terríveis. Não se trata de uma história sobre como a resiliência e o amor trazem recompensas no final. A história é sobre pessoas marginalizadas pela sociedade e como a falta de contato humano pode fazer aflorar o que há de pior em qualquer pessoa. A Fera é como a Criatura de Victor Frankenstein, que abandonada por seu criador devido à aparência repugnante, precisa aprender a se virar sozinha e é capaz de chegar a extremos como retaliação a ter sido negado a ela o contato com uma família e a amizade de outros seres humanos.

Não à toa, o criador da série Penny Dreadful diz ter se inspirado na história de Frankenstein para criar a série - como homossexual, ele sentia empatia pelo monstro incompreendido. Da mesma maneira, a animação da Disney de A Bela e a Fera de 1991 pode ser encarada como uma metáfora sobre pessoas infectadas com o vírus HIV. Howard Ashman, o compositor das peças musicais, era portador do vírus e fez com que a história do desenho, que inicialmente seria centrada apenas em Bela, se tornasse também a história de Fera (o que inclusive se aproxima mais do romance original de Madame Villeneuve). Homossexual assumido, Ashman morreu apenas quatro dias após a primeira exibição do filme e, para ele, a história era uma metáfora para a AIDS, ainda tão estigmatizada naquele início dos anos 1990.

Com tantas nuances, referências e interpretações possíveis, insistir em taxar o romance de "história sobre relacionamento abusivo" é recorrer a um lugar-comum que alimenta a desinformação, propagando uma ideia preconcebida que pode afastar pessoas das obras, quando mais saudável seria que cada um lesse os livros, assistisse os filmes e tirasse suas próprias conclusões. Ainda pior é impor esse tipo de interpretação para o público infantil, justamente a quem se diz querer proteger. Como nos lembra Bruno Bettelheim,

O valor do conto de fadas para a criança é destruído se alguém detalha os significados. (...) Todos os bons contos de fadas têm significados em muitos níveis; só a criança pode saber quais significados são importantes para ela no momento. A medida que cresce, a criança descobre novos aspectos desses contos bem conhecidos, e isso lhe dá a convicção de que realmente amadureceu em compreensão, já que a mesma história agora revela tantas coisas novas para ela. Isso só pode concorrer se a criança não ouviu uma narrativa didática do assunto. A história só alcança um sentido pleno para a criança quando é ela quem descobre espontânea e intuitivamente os significados previamente ocultos.

O que é necessário entender é que não se tratando de uma história sobre Síndrome de Estocolmo, o que fica também não é a mensagem de que o amor romântico supera tudo e muda as pessoas no final. Antes, ele transmite a ideia de que, sendo Fera, é possível transcender para um plano mais alto de existência, saindo de um estágio selvagem e primitivo, ou melhor, imaturo, para outro mais belo e nobre.

No romance original a ideia de Madame de Villeneuve era mostrar para as menina das quais era preceptora que os casamentos de aparências não tinham valor verdadeiro: o dinheiro pode acabar e a beleza é superficial. O que sobra no final é o caráter. E se A Bela e Fera deixa uma mensagem, seria esta: é sobre mostrar as provações pelas quais devemos passar se quisermos nos tornar seres humanos melhores e sobre a importância de se enxergar além das aparências -- afinal, o preconceito marginaliza as pessoas e a falta de contato humano pode gerar verdadeiros monstros.

No conto de fadas existe um perigo, mas ele é superado com êxito. Não há morte sem destruição, mas uma melhor integração simbolizada pela vitória sobre o inimigo ou competidor, e pela felicidade – e ela é recompensa do herói no final do conto. Para consegui-la, passa por experiências de crescimento comparáveis às experiências de que a criança necessita quando se desenvolve para a maturidade. Isso dá coragem à criança para que não desanime com as dificuldades que encontra na luta para chegar a ser ela mesma.
Em tempo: Não cheguei a tratar aqui do personagem Gaston, que existe apenas nos filmes da Disney, mas que é o verdadeiro vilão da história: um macho padrão, ele sim abusivo e agressor. Então recomendo o artigo de Júlia Medina para o Valkírias, que aborda justamente isso: aqui

Citações de Bruno Bettelheim (Na Terra das Fadas, análise sobre as personagens femininas, Paz e Terra), exceto quando indicado

Melhores de 2016: Votação Scream & Yell


Com a quantidade de veículos de imprensa, sites, blogs e páginas/perfis em redes sociais que diariamente soltam listas e mais listas de tudo que existe aí, eu tenho achado cada vez mais entediante acompanhar esse tipo de pauta. Na maioria das vezes, deixa-se de lado a curadoria cuidadosa, ou pelo menos honesta, apenas para conseguir alguns cliques enquanto surfa-se na onda do momento. Como o próprio conceito de blog em si vem ficando anacrônico, abrindo espaço para os canais no youtube, os posts no Facebook, os drops do Instagram e as newsletters, eu mesma não senti muita vontade de fazer um balanço pessoal do ano de 2016 e nem de fazer uma lista geral de melhores -- neste momento, parece irrelevante.

Dito isso, há exceções. Para mim, cada vez mais raras. Afora a curiosidade natural pelas opiniões e gostos dos meus amigos, ainda acompanho com interesse alguns veículos que resistem na enchente de informações (ou melhor, na enchente de conteúdo, seja lá o que conteúdo signifique) e que buscam fazer um trabalho sério e crítico, trazer perspectivas diferentes e garimpar o que há de melhor e mais interessante nas editorias que cobrem. Um deles é o Scream & Yell, editado pelo querido Marcelo Costa, que se mantém em um formato de site/fanzine que não vive de notícias do momento mas que busca trazer longas análises, coletâneas inusitadas e entrevistas saborosas de tudo o que existe de relevante na cultura pop, principalmente na música. O S&Y foi um dos primeiros sites a aceitar colaboração minha e fiquei muito feliz por ele ter lembrado de mim ao mandar os convites para a votação do site.

Vale a pena ir até lá (link) e olhar o resultado de tudo o que votamos como os melhores discos, shows, filmes, séries, clipes e livros de 2016. Reproduzo abaixo a minha lista individual de votos tal como mandei para o site (a versão editada para cortar as irrelevâncias foi postada aqui).

Em tempo: Acompanhei pouco as novidades do ano passado, principalmente em matéria de cinema. Se pudesse contabilizar os filmes não lançados no Brasil em 2016, acho que trocaria alguns, colocando A Criada, do Park Chan-wook, entre os cinco primeiros com certeza. Já em matéria de filme nacional, eu só me lembro de ter assistido três: Mãe só há uma, Aquarius e A Morte de João Paulo Cuenca. Embora eu goste de todos eles em geral, não acho que nenhum merecia o posto de melhor filme nacional do ano (contrariando a crença popular em Aquarius). Então resolvi não votar em nenhum. 

Já a respeito de séries, me esqueci completamente que Stranger Things havia sido lançada em 2016 e acho que colocaria no lugar de House of Cards. Também vale a menção para Love, série que muita gente odiou, mas que eu gosto mesmo assim e que deixaria ali disputando a quinta posição.

Em livro, coloquei o da Wislawa Szymborska em primeiro lugar mesmo sem ter terminado de ler ainda porque: gostei de tudo que li até agora; o anterior, Poemas, é um dos melhores livros que li no ano passado; Wislawa é maravilhosa.

Eis a lista:

MELHOR DISCO NACIONAL
01. Vitor Araújo - Levaguiã Terê
02. O Terno - Melhor do que parece
03. Baleia - Atlas
04. Céu - Tropix
05. Phillip Long - Cat Days


MELHOR DISCO INTERNACIONAL
01. Radiohead - A Moon Shaped Pool
02. Nonkeen - The Gamble
03. Neil Young - Peace Trail
04. Rihanna - Anti
05. MIA - AIM


MELHOR SHOW NACIONAL
Não fui a shows esse ano :(


MELHOR SHOW INTERNACIONAL
Pode colocar o Radiohead como o melhor show visto do sofá? :P


MELHOR FILME INTERNACIONAL
(Coloquei só os lançados comercialmente no Brasil)
01. O quarto de Jack
02. Spotlight
03. A bruxa
04. Os 8 odiados
05. O lagosta


MELHOR LIVRO
01. Um amor feliz, Wislawa Szymborska
02. História de quem foge e de quem fica, Elena Ferrante
03. Linha M, Patti Smith
04. Meia-noite e vinte, Daniel Galera
05.A Filha Perdida, Elena Ferrante

O MELHOR DA TV
01. A Noiva Abominável - Sherlock, especial de ano novo
02. Black Mirror, terceira temporada (destaque para "Shut up and dance")
03. Luke Cage, primeira temporada
04. House of Cards, quarta temporada
05. Game of Thrones, sexta temporada

MELHOR VIDEOCLIPE
01. Daydreaming - Radiohead
02. Lemonade (Álbum visual) - Beyoncé [Não sei onde colocar esse, mas achei que funciona mais a união de música e vídeo que isoladamente]
03. Lazarus - David Bowie
04. Doing it to death - The Kills
05. Ai, ai, como eu me iludo - O Terno




As melhores e as piores leituras de 2016


Em um ano com muitas tarefas, li menos do que gostaria e atualizei o blog com muito menos frequência do que pretendia. Abandonei ou deixei em banho-maria alguns projetos de leitura como o 12 meses de Poe, o Projeto Penny Dreadful e o Lendo Ficções (e também o cinematográfico 52 Filmes por Mulheres). Terminei aos 45 do segundo tempo o Desafio Lendo Mais Mulheres 2016 - e embora tenha lido mais mulheres em 2016, a maior parte das minhas leituras ainda foi dominada por autores.

É impossível fazer a lista de melhores livros do ano, já que não consegui dar muita atenção aos lançamentos, mas há várias muito boas por aí. Aqui, deixo esta listinha do que mais gostei de ter lido este ano e espero que sirva como dica para alguém que esteja buscando boas leituras.

Como nem tudo são flores, alguns livros decepcionaram. Eles também mereceram uma menção.

Eis as melhores leituras do ano, na ordem em que foram feitas:

01. O que deu para fazer em matéria de história de amor, Elvira Vigna (Impressão de leitura)

02. Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza (Impressão de leitura)

03. Quarenta dias, Maria Valéria Rezende (Impressão de leitura)

04. Poemas, Wislawa Szymborska (Impressão de leitura)

05. Só Garotos, Patti Smith (Impressão de leitura)

06. Asco, Horacio Castellanos Moya (Resenha)

07. A ilha do dr. Moreau, H.G.Wells (Impressão de leitura)

08. Do Inferno, Alan Moore e Eddie Campbell (Impressão de leitura)

09. Linha M, Patti Smith (Impressão de leitura)

10. Frida - a biografia, Hayden Herrera (Impressão de leitura)

Também gostei de:

A louca da casa (Rosa Montero); No mar (Toine Heijmans); O papel de parede amarelo (Charlotte Perkins Gilman); Pílulas azuis (Frederik Peeters); Bitch Planet Vol. 1 (Kelly Sue); O livro do cemitério (Neil Gaiman); Como curar um fanático (Amós Oz); Os viajantes (Ronald Polito); Azul corvo (Adriana Lisboa); Frankenstein (Mary Shelley); Meia-noite e vinte (Daniel Galera); Lugar nenhum (Neil Gaiman); Mary Poppins (P.L. Travers); Diário (Frida Kahlo); História do novo sobrenome (Elena Ferrante).


O desafio Lendo Mais Mulheres 2016

01. Livro de poesia: Alguns versos pervertidos e outros indecorosos, Mikaelly Andrade ⭐⭐⭐⭐
02. Literatura infantil: Mary Poppins, P.L. Travers ⭐⭐⭐⭐⭐
03. Livro não ficção: Só Garotos, Patti Smith ⭐⭐⭐⭐⭐
04. Livro ganhador do Jabuti: Quarenta Dias, Maria Valéria Rezende ⭐⭐⭐⭐
05. Autora Nobel: Wislawa Szymborska (Poemas) ⭐⭐⭐⭐⭐
06. HQ: Bitch Planet, Kelly Sue ⭐⭐⭐⭐⭐
07. Livro independente: Toureando o Diabo, Clara Averbuck ⭐⭐
08. Livro de autora latina: O vento que arrasa, Selva Almada ⭐⭐⭐⭐
09. Livro de autora negra: Jazz, Toni Morrison (em andamento)
10. Livro de autora contemporânea: Operação Impensável, Vanessa Bárbara ⭐⭐⭐
11. Livro de autora conterrânea: O que deu para fazer em matéria de história de amor, Elvira Vigna (RJ) ⭐⭐⭐⭐⭐
12. Livro de autora estreante: A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha ⭐⭐⭐

Ao todo, li 24 livros e 2 HQs escritas por mulheres esse ano, contra e 23 livros e 8 HQs escritos por homens; um número razoável, que poderia ser melhor. A experiência de colocar uma meta para ler coisas que eu não leria tão cedo foi bastante positiva, acabei conhecendo mais autoras diferentes.

Piores leituras de 2016:

Toureando o diabo, Clara Averbuck (Entrevista)
Tudo tem uma primeira vez, Vitória Moraes (Resenha)
Alucinadamente feliz, Jenny Lawson (Resenha)
Roube como um artista, Austin Kleon (Impressão de leitura)
O mundo de Aisha, Ugo Bertotti (Impressão de leitura)






Momento Lifetime: Mulheres psicoatípicas também sofrem abusos


O caso da bacharel em direito Ariadne Wojcik, que se suicidou após deixar uma mensagem em seu Facebook denunciando um professor por assédio, levanta a discussão muitas vezes deixadas de lado de que mulheres com distúrbios psiquiátricos também sofrem assédio. O problema é que ninguém acredita nelas. Escrevi sobre lá no blog do Momento Lifetime, clica aqui.




Entrevista: Phillip Long e o Manifesto de uma pequenina vida


O Phillip Long lançou uma campanha no Catarse para financiar seu décimo primeiro álbum, o Manifesto de uma pequenina vida, e eu bati um papo rápido com ele sobre o projeto, o papel de um compositor e o estado atual da música brasileira independente. É a quarta entrevista que faço com o Phill e, como sempre, as respostas são ótimas. Saiu lá no Scream & Yell.






diários, doismil&nove


Não gosto de ser vista como objeto sexual nem tratada como tal. Não gosto que me apalpem  que levantem minha roupa. Isso pra mim é um desrespeito, do tipo que só fazem com as putas nos puteiros porque elas são pagas para aturar esse tipo de coisa. Não gosto que tirem a minha roupa, me apalpem ou finjam me abusar sexualmente. Não gosto que coloquem a boca e as mãos em mim sem o meu consentimento. Para mim isso é estupro. Não tem graça e não deve ser feito nenhuma vez. Como será que se sente alguém que do nada tem a roupa levantada e os seios expostos? Só um completo babaca faz esse tipo de coisa. Tenho muita, muita raiva desse tipo de sexismo que permite que otários achem natural esse tipo de brincadeira, esse tipo de atitude. Deve ser típico desses espectadores de programas degradantes de humor duvidoso. Queria também expor as barrigas gordas e os peitinhos masculinos ou abaixar suas calças para vê-los desconcertados com suas bundas e pintos moles de fora. Mas eu não me rebaixo. Não com atitudes, mas uso essas palavras. São as armas que eu sei usar.

Triste. Postei este texto no fotolog e o E agora está muito puto para falar comigo. Mas eu não podia evitar. De certa forma, queria mesmo que o texto o atingisse, mas também queria falar pelas mulheres que sofrem essas violações ou são induzidas a gostar delas para serem "boas" e "safadas" o suficiente para seus companheiros não procurarem na rua. Eu já havia tido uma meia conversa com ele sobre isso, mas não havia explicado tudo. Ele tentou se defender dizendo que só tinha feito essas coisas poucas vezes e que achava grava na minha reação. A graça era o desconcerto e não o ato erótico em si. Ele disse também: "Desculpa. Se você não gosta, não faço mais". Mas para mim não foi o suficiente, não é tão simples assim. Se trata de todo um sentimento de vergonha e humilhação e banalização e de ser usada como um brinquedo divertido, em vez de uma pessoa que tem reações e sentimentos e discernimento. Isso não se ajeita com frases simplórias ou uma mera conversa. Não se trata de não querer que isso aconteça mais; se trata de mudar as cabeças para que elas percebam o quão baixo e sem graça são essas atitudes. E por isso eu briguei e escrevi na internet. Porque pra mim não se trata apenas de uma coisa íntima de casal, se trata de um reflexo de um pensamento machista. O texto está lá para qualquer um ver, qualquer um que pense em se aproximar de mim. Pode ser E ou qualquer outro.

Por enquanto, não sei o que fazer ou dizer, já que não estou inclinada a me desculpar, embora me sinta ligeiramente arrependida. Entendo como a agressão inesperada e a exposição de maneira ridícula e grotesca deve ter mexido com ele, que me imaginava incapaz de fazer algo assim. Só que não me sinto mais em posição de aceitar tudo ou de ser delicada só porque ele é bonzinho e companheiro. Eu quero ter voz ativa e não ser apenas a donzela que tem todos os seus pedidos atendidos.

***

Ele me ligou dizendo que precisava de um tempo sozinho e que a gente podia conversar na sexta. Tudo isso depois de dizer que não tinha nada para falar comigo, que eu era baixa e filha-da-puta. Que eu não prestava e que tinha nojo de mim, entre outras coisas. Sexta pra mim é um dia cheio, tenho psicóloga e eu disse que não daria. Espero poder contar tudo isso a ela e que ela me ajude a resolver essa situação. Eu ando triste e desanimada mas não sei se é só por isso ou por outros motivos. Tenho gostado mais da presença dele como amigo do que como namorado. 2 anos jogados fora?

Setembro, 2009

52 FILMES DIRIGIDOS POR MULHERES: MÊS #5



Esses foram os filmes escolhidos em setembro. As dicas são postadas semanalmente no Instagram, usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen e também no Tumblr


Entre Nos (Idem, EUA, 2014) 
⭐⭐⭐⭐

O independente Entre Nos, da colombiana Paola Mendoza, com codireção de Gloria La Morte, é inspirado em uma situação ocorrida com a diretora quando ainda pequena: tendo imigrado há duas semanas de Bogotá para Nova York, ela, sua mãe e irmão são abandonados pelo pai, que vai para Miami sem deixar um endereço e nem responder a telefonemas. Sem trabalho, sem dinheiro e sem saber falar inglês, Mariana, a mãe, começa a tentar vender empanadas, sem muito sucesso, até que a família acaba sendo despejada do pequeno apartamento onde moravam. Na rua, Mariana começa a catar latinhas e dormir ao relento com os filhos, dependendo da generosidade alheia até conseguir juntar dinheiro suficiente para poder alugar um quartinho. Como se não bastasse a fome a pobreza, a mulher ainda descobre uma gravidez indesejada e, não tendo meios de conseguir um aborto legal, recorre aos clandestinos.

Apesar de tanto drama, o tom é otimista e inspirador, focado mais na garra da mãe em fazer o que fosse preciso para garantir o bem estar dos filhos e conseguir dinheiro. Além de mostrar a vulnerabilidade de uma mãe e dona de casa que deixa seu país de origem para acompanhar o marido e o desequilíbrio entre as possibilidades de escolhas entre o homem e a mulher, as diretoras procuram também jogar luz sobre as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes nos EUA.
 


Mãe só há uma (Idem, Brasil, 2016)
⭐⭐⭐ 

O mais recente longa de Anna Muylaert foi inspirado na história do menino Pedrinho, que durante a adolescência descobriu ter sido roubado na maternidade. Aqui, a diretora explora ainda as descobertas de sexualidade e identidade de gênero do protagonista, Pierre, que, se já dava pistas naturais de uma identificação com o gênero feminino, após ver ruir a família que acreditava ser sua, a vida que levava e a própria identidade (bruscamente passa a ser chamado de Felipe quando é obrigado a ir viver com sua família biológica), passa a explorar sua transição publicamente, como uma forma de afronta e resistência. 

O filme é uma produção menor do que ‘Que horas ela volta?’ e até mais convencional, não procurando se aprofundar e desenvolver os temas que levanta, embora sejam tratados com cumplicidade. Apesar disso, é bacana ver o jogo de ambivalência e contraste com que ele opera. Arrisco até uma extrapolação pra observar que essa dualidade aparece até na escolha do elenco: um ator de nome neutro (Naomi Nero, cuja irmã é uma mulher trans) interpreta o protagonista em transição; Matheus Nachergaele dá vida a um pai preso aos ideais de masculinidade e Daniela Nefussi encarna tanto a mãe postiça quanto a verdadeira. Não é tão forte quanto o filme anterior, mas eu gostei.


As praias de Agnès (Las Plages D'Agnès, França, 2008)
⭐⭐⭐⭐

Em seu documentário autobiográfico, a cineasta belga Agnès Varda parte do seguinte ponto: se você pudesse olhar o interior das pessoas, encontraria várias paisagens. Nela, há várias praias. E aí ela vai revisitando as praias da sua vida, usando o cenário como ponto de intersecção da sua vida e da sua obra, mas nunca de forma banal: longe de ser um documentário convencional, o filme é mais uma peça cinematográfica sensível da diretora, recheado de metalinguagem, reinterpretações, poesia e humor. Uma homenagem ao cinema feita por alguém que dedicou sua vida a ele.

 
Bom Trabalho (Beau Travail, França, 1999)
⭐⭐⭐⭐
 
‘Bom trabalho’, da cineasta francesa Claire Denis, foi livremente inspirado em Billy Budd, de Herman Melville, e não conta necessariamente uma história, mas mostra as memórias do sargento Galoup enquanto servia à Legião Estrangeira em Dijibouti, na África. Pode-se dizer que o filme trata das relações de ciúmes, inveja e poder entre homens, com um forte subtexto homoerótico, embora muito pouca ação ou diálogo aconteçam.

Além da belíssima fotografia, o que me chamou a atenção foi a forma delicada como a diretora mostra o universo masculino, passando bem longe dos clichês geralmente vistos em obras sobre o assunto. Denis não se furta de mostrar um desfile de belos corpos masculinos, mas sem nenhum traço de fetichismo: o movimento captado por ela se assemelha mais à dança, ainda que sempre de maneira natural, e poucas vezes vi a imagem masculina ser mostrada de forma tão sensual, sem agressividade, como aqui. O filme em si é bem diferente da maioria das coisas que eu já vi, mas não achei que chega a ser a obra-prima considerada pela crítica.

Momento Lifetime: A dor do outro


O texto da semana no Momento Lifetime é sobre o Movimento Setembro Amarelo e o lidar com o suicídio e o sofrimento alheio.

É só clicar aqui para ler lá ou acompanhar abaixo:

Esse mês o Centro de Valorização da Vida, o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria lançaram pela primeira vez o Movimento Setembro Amarelo, que procura chamar atenção para a necessidade de se falar sobre a questão do suicídio de forma franca, solidária e sem tabus. A ideia é oferecer meios para prevenção de uma atitude tão decisiva, já que, segundo dados oficiais, nada menos que nove entre dez suicídios poderiam ter sido evitados.
Quem sofre de transtornos psiquiátricos ou já se viu em um episódio de profunda depressão, sabe que a perspectiva de se extinguir o sofrimento, a solidão e a sensação de falta de sentido da vida através do encerramento desta é sedutora. O suicídio não é uma atitude covarde e nem egoísta; pelo contrário, a sensação de ser um peso morto na vida das outras pessoas, de ter uma existência completamente inútil e a culpa advindos destes sentimentos é o que geralmente motiva alguém a acabar com a própria vida. Embora não sendo os únicos, a sensação de fracasso e a vergonha de si mesmo costumam ser fatores importantes nesta decisão, muitas vezes tomada em momentos de pleno desespero e desesperança -- em lugares como o Japão, não é incomum a prática entre pessoas que fracassam em suas vidas profissionais, entre outros motivos. Inclusive, diferente de sociedades cristãs que encaram o suicídio como um pecado, para alguns japoneses o suicídio é uma forma de assumir responsabilidades.
Tratar o tema como tabu serve apenas para criar uma áurea de mistério e romantismo trágico sobre ele. No século XVIII, a publicação de “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, levou à uma onda de suicídios de jovens germânicos. Segundo a autora Socorro Acioly em sua coluna, os jovens de hoje têm banalizado o tema “como se fosse mais uma rebeldia da idade, um gesto de afirmação e sobretudo de coragem. (…) Eles tratam a ideia de se matar como se falassem de algo banal”, escreve ela com inquietação.
Mas antes de apontar os dedos para a pessoa que toma uma decisão tão drástica, é mais importante procurar analisar o que leva alguém a se decidir por este caminho. Em 2012, o escritor Ricardo Lísias publicou o aclamado “O Céu dos Suicidas”, romance baseado no suicídio cometido por um dos seus amigos mais próximos. No livro o personagem Ricardo Lísias, que muitas vezes se confunde com o próprio autor, tenta lidar com a culpa de não ter sido capaz de perceber os sinais e ajudar o amigo, que estava sofrendo de graves transtornos psiquiátricos, e se tornando um estorvo em sua vida ao passar uns dias em seu apartamento.
Um dos motivos para o volume ter sido escrito, segundo Lísias, foi a percepção da crueldade com a qual as pessoas trataram o suicídio de seu amigo. Durante o Paiol Literário acontecido em 2012, ele fez um comentário extremamente pertinente sobre a forma com que se costuma tratar os suicidas:
“Gostaria que as pessoas fossem menos cruéis com os suicidas. Não sei se é isso que eu gostaria que as pessoas lessem no livro, mas o livro foi escrito porque eu achava as pessoas muito cruéis com o meu amigo. (...) Li textos religiosos sobre o suicídio e fiquei muito espantado com o grau de violência com que as religiões tratam os suicidas. Por exemplo, a psicologia está muito mais adiantada nesse assunto do que a religião. Então, nos textos religiosos, que mexem muito com as pessoas, o grau de violência com que os suicidas são tratados é espantoso. Ou o grau de indiferença, as pessoas tentando entender 'como ele fez isso com a gente?', que é uma frase muito falada, 'que absurdo', 'que coisa covarde'. Eu não acho que seja covarde. Pelo contrário, acho que é um ato muito corajoso, muito forte; é um ato de força, às vezes, de violência. Gostaria de um pouco mais de compreensão, talvez. Compreensão não é uma palavra boa, porque não dá para saber os reais motivos do suicida. Talvez de menos violência.”
Dessa forma, campanhas como o Setembro Amarelo se mostram uma iniciativa importante para sensibilizar as pessoas a respeito da dor do outro e mostrar para aqueles que sofrem sozinhos que há uma saída. Apesar disso, nem sempre as ações se mostram adequadas na prática. Uma delas, bastante criticada por profissionais da saúde mental, envolvia o compartilhamento e uma imagem em que a pessoa informava estar à disposição para conversar sobre o sofrimento alheio. Em um primeiro momento, a iniciativa parece bastante sensível e generosa: muitas vezes, o simples ato de desabafar com alguém que se importa pode ser um grande alívio para a dor. O problema é que a maioria das pessoas não está preparada para lidar com a complexidade que são os demônios alheios, e uma escuta displicente, apressada e cheia de lugares-comuns pode ser frustrante para quem procura acolhimento, inclusive tendo o efeito contrário.
Há ainda algumas críticas sobre a legitimidade moral de se encarar o suicídio unicamente como uma questão médica e também de se intervir no desejo de alguém de encerrar a própria vida – para alguns, isso implicaria em uma infantilização e tomada da autonomia do suicida. Sendo o suicídio um assunto complexo, impossível de se generalizar as causas e os comportamentos, acredito que os casos devam ser tratados de forma específica, com cuidado, atenção e sensibilidade caso a caso. E, principalmente, por um profissional.
Eu já passei por uma depressão profunda em que pensava bastante sobre o tema e embora não tivesse a coragem necessária para algo tão irreversível, passei um longo período me deixando perecer. E embora eu não tenha conhecido pessoas próximas que se suicidaram, conheço pessoas que planejaram de fato mas desistiram na hora H. E em todos os casos, o sentimento de solidão, vazio e desespero foi o que motivou essas pessoas, que não avisaram ninguém de suas intenções. Mas davam sinais de profunda dor e o que era possível detectar era o pedido de socorro que havia por trás de suas intenções. Algumas vezes, conseguimos socorrer. Em outras, não. Algumas vezes, mesmo que não consigamos, o suicida em potencial irá decidir viver. Em outras, ele vai preferir encerrar definitivamente o seu sofrimento. Essas pessoas que encontraram forças em si mesmas para continuar, estão em momentos melhores de suas vidas. Mas para algumas outras, em situações muito dramáticas, viver pode ser uma lenta e permanente tortura.
Não existe uma resposta fácil e nem uma resposta única. Mas se é verdade que nove entre dez casos são reversíveis, eu acredito que vale a pena tentar fazer alguma coisa. Parafraseando a autora Jenny Lawson, muitas vezes não entendemos o sofrimento alheio, mas sabemos que o mundo é um lugar melhor com essas pessoas aqui. O que podemos fazer por elas é nos importarmos.