[Drops] 3 livros de autores africanos: Americanah | Quem me dera ser onda | Sangue negro



Ao buscar em meus arquivos resenhas ou impressões de leitura para esta publicação, senti vergonha. Percebi que li pouquíssimos autores negros em geral, apesar de ter lido mais escritoras mulheres. Comentar, comentei pouco. Resenhar, nada. E não me dei conta. Procurei por títulos que acreditava ter escrito sobre, mas não. Então percebi que sou parte do problema: mesmo lendo autores negros, ainda leio pouco, e se não escrevo sobre, contribuo para a invisibilidade de muitos autores e obras. Não que eu esteja me dando grande importância, mas se a gente que lê e compartilha as leituras na internet comenta pouco a literatura feita por autores negros, independe do alcance que se tenha, todos fazemos parte do problema. E adianta pouco ter lido todos os livros da Chimamanda (não é meu caso, aliás): precisamos de mais vozes diferentes, não apenas as vozes do momento.

Então fica o meu compromisso comigo mesma de não apenas ler mais autoras e autores negros, mas também de comentar, avaliar e resenhar esses livros. Nestes drops, compartilho minhas leituras de três autores: a já citada nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, o angolano Manuel Rui e a maravilhosa moçambicana Noémia de Sousa.

Americanah (Idem), Chimamanda Ngozi Adichie
520 páginas, Companhia das Letras
Tradução de Julia Romeu

Embora o romance faça parte do enredo, Americanah não é sobre uma história de amor. É sobre choque cultural, sobre estereótipos, sobre diferenças sociais, sobre papéis de gênero e, com mais ênfase, um retrato sobre as nuances do racismo e o que significa 1) ser um negro americano nos EUA; 2) ser um negro africano nos EUA; 3) ser um negro africano que estudou/morou nos EUA ou na Europa e voltou e 4) ser um negro africano na Nigéria. E ainda toca na questão da imigração e das condições sociais, econômicas e políticas tanto do nigeriano que fica quanto do que sai. Tudo isso escrito de maneira divertida, inteligente, e extremamente franca, alternando entre os pontos de vista de Ifemelu e Obinze, o casal protagonista.

Quem me dera ser onda, Manuel Rui
72 páginas, Gryphus

Manuel Rui é um autor angolano e nessa novelinha cômica ele conta a história de uma família que, apesar da proibição, leva um leitão para dentro do seu apartamento para alimentá-lo o suficiente até que fique bom para ser morto e virar comida. Mas as crianças se afeiçoam o porco, a quem chamam de Carnaval da Vitória, e tentam fazer de tudo para protegê-lo.
O que é interessante aqui é que a história se passa após a independência de Angola, durante um período de intensa alegria pelo fim do colonialismo português e intenso comunismo. O que Manuel Rui faz aqui é mostrar as contradições das aplicações dos valores revolucionários na prática, através do cotidiano dos moradores do prédio. Mais interessante ainda é ler esse português angolano, cheio de palavras desconhecidas para mim e fascinantes, escritas de forma a emular a língua oral.

Sangue Negro, Noémia de Sousa
200 páginas, Kapulana


Noémia de Sousa, escritora, jornalista e primeira mulher moçambicana a publicar um texto. Poeta marxista, influenciada pelo movimento de negritude, escreveu poemas de resistência que trazem leituras sobre a mulher negra a partir do próprio olhar, em contraste ao exotismo do olhar europeu. Sangue Negro é seu único livro e reúne sua produção entre 1948 e 1951. Só foi publicado em 2001, já que ela era contra publicações de livro, preferindo manter seus poemas em revistas e jornais.

É a primeira edição no Brasil e vem caprichadíssima, com ilustrações, textos de apoio e mensagens de outros escritores, como Marcelino Freire e Mia Couto.

Negra
Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longíqua, inatingível,
virgem de contatos mais fundos.
E te mascaram de esfinge e ébano,
amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atração, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras
vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

[Drops] 3 livros de John Green: Cidades de Papel | O Teorema Katherine | Tartarugas até lá Embaixo


Há uns dias atrás o Twitter foi palco de um debate antiquado, limitado e conservador: alta literatura X baixa literatura, o que em tempos distantes costumava significar a superioridade da literatura consumida pelas classes altas em detrimento daquela consumida pelas classes baixas. O pivô da discussão foi um indivíduo que criticava pessoas que declaram gostar de ler mas possuíam apenas "Harry Potter, John Green e quando muito Stephen King" na estante. Segundo ele, essas pessoas gostam apenas de consumir distração fácil porque gostar de ler significa perder a fome durante o café da manhã lendo Crime e Castigo ou passar dias fazendo pesquisas a cada página de O Ser e o Nada. Deduzi que para esta pessoa, adultos que consomem literatura infanto-juvenil, jovem-adulta e best-sellers seriam algo como seres involuídos na escala da intelectualidade.

Este é um assunto que abrange tantas variáveis que nem mesmo cabe aqui. A gente precisa levar em consideração desde o sistema educacional brasileiro, o acesso ao objeto livro, os incentivos à leitura, o papel que a crítica e a imprensa especializada têm (ou deixam de ter) na comunicação com os potenciais leitores, o tempo que alguém pode ou não ter para se dedicar a leituras complexas, o marketing, o mercado editorial, a influência do cinema até chegar no que é considerado literatura de qualidade por quem e em que contexto histórico, já que muitos clássicos de hoje foram tidos como leitura imprópria, bobagem ou mesmo lixo antes.

A verdade é que se alguém está lendo livros, sejam eles de Dostoiévski ou de John Green, e gostando disso e consumindo literatura, então está pessoa gosta, sim, de ler e isso deveria ser óbvio para qualquer um. Talvez ela esteja pouco ligando para os clássicos e para a literatura considerada série e de boa qualidade, e não é um sujeito qualquer que tem o direito de constranger um leitor por não concordar com suas opções de leitura.

Quem gosta de ler, quem gosta de literatura (ou de cinema ou de música, etc.), costuma ter uma curiosidade natural por tudo o que está sendo feito, seja no âmbito considerado mais artístico, filosófico, experimental, seja no âmbito comercial. Há bons livros e bons autores em todas as esferas e escrevendo em qualquer mídia, do mangá à graphic novel, dos blogs à poesia de Instagram, e quem está preso somente ao cânone, está perdendo o bonde do presente e da literatura contemporânea, e mostra que não está muito interessado na literatura em si, mas mais em reproduzir preconceitos acadêmicos e elitistas.

De leitores profissionais se espera que tenham conhecimentos sobre grandes obras e que as consumam, ainda que não haja nada de errado em equilibrar essas leituras com puro entretenimento. Todas as outras pessoas deveriam poder ler (e ouvir e assistir) aquilo que bem entendem, sem ter que lidar com esses malas no meio do caminho.

E aproveitando o ensejo, eu estava justamente lendo o novo livro do John Green, Tartarugas até lá embaixo quando esse debate aconteceu. Reconheço que não sou nenhuma grande fã, nem mesmo li o badalado A Culpa é das Estrelas, mas acho que ele faz literatura de qualidade para jovens e adolescentes. Deixo para a semana as minhas impressões de leitura dos outros dois livros do autor que eu já conferi:


Cidades de Papel (Paper Towns)
368 páginas, Intrínseca
Tradução de Juliana Romeiro

John Green é, de fato, um talento dentro da literatura juvenil e aqui ele tem Quentin, um protagonista um tanto certinho, mas não chato, apaixonado, que alimenta uma paixão,platônica por sua vizinha, a carismática, inquietante e misteriosa Margo, de quem foi muito próximo na infância. Eles estão prestes a se formar quando Margo leva Quentin para um aventura no meio da noite e, no dia seguinte, desaparece. Quentin então resolve buscar pistas e cruza o país na esperança de encontrar Margo - enquanto teme que ela possa ter cometido suicídio. Cidades de Papel é um road book divertido que apresenta a poesia de Walt Whitman de maneira inteligente para novos leitores e traz um final imprevisível. A leitura é rapidinha e gostei bastante!





O Teorema Katherine (An Abundance of Katherines)
304 páginas, Intrínseca
Tradução de Renata Pettengill


O segundo livro publicado por John Green conta a história de Colin Singleton, um menino prodígio sem muitas qualidades ou atrativos cujo maior feito na vida foi ter participado de um programa de televisão em um canal que ninguém conhecia. Como a maioria das crianças prodígio, cresceu em torno de muita expectativa e desenvolveu um enorme ego - o que ao mesmo tempo em que fazia com que se sentisse especial, o isolava pela falta de amigos. Colin Singleton possui duas peculiaridades: é capaz de criar anagramas com qualquer grupo de palavras e só namora Katherines. O livro acompanha a tentativa de Colin em montar um teorema universal capaz de prever quanto tempo um relacionamento duraria e quem terminaria com quem, enquanto busca curar a fossa de ter sido abandonado por sua última Katherine, em uma road trip acompanhada por seu amigo árabe Hassan - um gordinho rico e não muito inteligente, que funciona como o alívio cômico da história.

Com uma fórmula envolvendo o argumento de que o mundo está dividido em dois tipos de pessoas: Terminantes e Terminados e as variantes de acordo com as personalidades envolvidas, durante todo o romance Colin procura dar um sentido a seu teorema enquanto se hospeda na remota cidade de Gutshot, no Tenessee, lugar onde os dois amigos fazem uma pausa na viagem atraídos pelo suposto túmulo do arquiduque Francisco Ferdinando, e onde acabam arranjando emprego e conhecendo novas pessoas, sendo o marco entre o fim de suas adolescências e início da vida adulta. Colin e Hassan são jovens tradicionais: não bebem, não fumam nem usam drogas, não frequentam boates ou leem revistas de baixa qualidade e Hassan é do tipo que prefere não sair com garotas enquanto não se apaixona de verdade. Mas toda a caretice do livro termina aí: repleto de palavrões, piadas e passagens sem tabus, John Green utiliza de uma linguagem bem humorada e se arrisca a fazer uso de notas de rodapé interativas absolutamente desnecessárias mas completamente divertidas, falando a mesma língua do seu público sem parecer afetado. Com um bom trabalho de tradução realizado por Renata Pettengill, O teorema Katherine é um infanto-juvenil inteligente, repleto de diálogos divertidos bem construídos e referências históricas.

Tartarugas até lá Embaixo (Turtles all the way down)
256 páginas, Intrínseca
Tradução de Ana Rodrigues

Lá na folhinha com os agradecimentos, John Green termina seu texto escrevendo assim: "Pode ser um caminho longo e difícil, mas os transtornos mentais são tratáveis. Há esperança, mesmo que seu cérebro lhe diga que não". Ele reconhece que o tratamento de qualidade é um privilégio fora do alcance de muitos, mas não deixa de ser um consolo, principalmente para o público para o qual ele escreve, saber que alguém passou pelo mesmo problema e conseguiu, porque a saída existe. Não sei nada sobre a vida de John Green, mas sei que sofre de TOC e lendo sobre as paranoias, as crises e o sofrimento da protagonista, também narradora, concluí que ele estivesse falando sobre si próprio.

Quem convive ou já conviveu com transtornos mentais sabe como é difícil e assustador, principalmente no início. Os pensamentos intrusivos, as crises paralisantes de ansiedade, o medo de enlouquecer, a crença de que você jamais vai ser, ou voltar a ser, uma pessoa funcional e terá que passar o resto da vida no mesmo lugar onde está são uma realidade constante e difícil para quem está de fora compreender. O que se passa na cabeça de Aza Holmes é narrado com tanta naturalidade e de forma tão realista que a leitura pode ser dura, mas ao mesmo tempo me fez pensar em como eu gostaria de ter lido um livro assim há dez anos atrás.

Tartarugas até lá embaixo (Intrínseca, tradução de Ana Rodrigues) é sobre conviver com transtornos mentais. Não é sobre o mistério, bastante secundário, nem sobre o romance, interditado quase desde o princípio, ainda que essas tramas ajudem a suavizar o que no cinema seria chamado de estudo de personagem. Acho que para um Jovem Adulto funcionar bem certas fórmulas são necessárias, mas logo dá para perceber que o autor não está muito interessado nelas: já de saída, a capa do livro mostra um espiral, aquele de pensamentos e sensações assustadoras que se afunila cada vez mais enquanto você cai nele, e o título vem de uma anedota sobre o funcionamento do universo. Mistérios e romances à parte, é a psicologia de Aza o que importa. Resenha completa aqui.

Tartarugas até lá embaixo, John Green



Lá na folhinha com os agradecimentos, John Green termina seu texto escrevendo assim: "Pode ser um caminho longo e difícil, mas os transtornos mentais são tratáveis. Há esperança, mesmo que seu cérebro lhe diga que não". Ele reconhece que o tratamento de qualidade é um privilégio fora do alcance de muitos, mas não deixa de ser um consolo, principalmente para o público para o qual ele escreve, saber que alguém passou pelo mesmo problema e conseguiu, porque a saída existe. Não sei nada sobre a vida de John Green, mas sei que sofre de TOC e lendo sobre as paranoias, as crises e o sofrimento da protagonista, também narradora, concluí que ele estivesse falando sobre si próprio.

Quem convive ou já conviveu com transtornos mentais sabe como é difícil e assustador, principalmente no início. Os pensamentos intrusivos, as crises paralisantes de ansiedade, o medo de enlouquecer, a crença de que você jamais vai ser, ou voltar a ser, uma pessoa funcional e terá que passar o resto da vida no mesmo lugar onde está são uma realidade constante e difícil para quem está de fora compreender. O que se passa na cabeça de Aza Holmes é narrado com tanta naturalidade e de forma tão realista que a leitura pode ser dura, mas ao mesmo tempo me fez pensar em como eu gostaria de ter lido um livro assim há dez anos atrás.

Como se eu pudesse sequer fantasiar em estudar em outro estado, onde se paga uma fortuna para dormir em alojamentos repletos de desconhecidos, com banheiros e refeitórios coletivos e nenhum espaço privado onde eu pudesse ser maluca em paz? Ficaria presa na universidade dali, isso se conseguisse pelo menos organizar a mente um pouquinho, ao menos o suficiente para me candidatar. Moraria na casa com minha mãe, e depois da faculdade também. Nunca me tornaria uma adulta funcional daquele jeito; era inconcebível que eu chegasse a ter uma carreira. 

Já deu pra notar que Tartarugas até lá embaixo (Intrínseca, tradução de Ana Rodrigues) é sobre conviver com transtornos mentais. Não é sobre o mistério, bastante secundário, nem sobre o romance, interditado quase desde o princípio, ainda que essas tramas ajudem a suavizar o que no cinema seria chamado de estudo de personagem. Acho que para um Jovem Adulto funcionar bem certas fórmulas são necessárias, mas logo dá para perceber que o autor não está muito interessado nelas: já de saída, a capa do livro mostra um espiral, aquele de pensamentos e sensações assustadoras que se afunila cada vez mais enquanto você cai nele, e o título vem de uma anedota sobre o funcionamento do universo. Mistérios e romances à parte, é a psicologia de Aza o que importa.

Sem título, Raymond Pettibon


Este é o terceiro livro do autor que leio (os outros foram O Teorema Katherine e Cidades de Papel) e mais uma vez me impressionou positivamente. John Green escreve bem, tem conteúdo e boas referências, embora não seja perfeito: em muitos momentos as situações
são inverossímeis: a mansão de Davis parece saída de uma história de ficção científica ou livro de espionagem, o que deve ser proposital, e os adolescentes pensam e falam como adultos intelectualizados, o que talvez tenha um pouco menos de apelo com o público mais jovem, que deve ter uma certa dificuldade em se reconhecer.

Por outro lado, John Green mostra conhecer bem os interesses do jovem contemporâneo: os personagens frequentemente conversam via whatsapp (o que não é mero recurso estilístico e serve também para mostrar as dificuldades de relacionamento de Aza, que se relaciona tão bem com Davis quando estão longe um do outro); a melhor amiga de Aza, Daisy, é uma escritora de fanfics de Star Wars famosinha na internet e seus discursos são engajados com o feminismo e a esquerda mas de forma displicente. Daisy também é de família latina, mas sabemos disso apenas por seu sobrenome e pelo abismo financeiro entre ela e Aza que, apesar de se considerar pobre, goza de privilégios dos quais nem mesmo se dá conta. E é também sutilmente que nos damos conta de que o namorado de Daisy, Mychal, é negro, ainda que em nenhum momento o autor precise descrevê-lo dessa forma ou se endereçar a situações de racismo. Isso mostra que é possível fugir de clichês e esterótipos com um pouco de habilidade e imaginação.

Mas o maior acerto está em não tratar a doença mental de uma forma caricata ou romantizada, como uma excentricidade engraçada ou como se pessoas que sofressem de transtornos psíquicos tivessem habilidades especiais que outras não têm -- ainda que possa haver alguma relação entre talento e neuropatia (é comum que pessoas com transtorno do espectro autista, por exemplo, tenham habilidades extraordinárias em alguma coisa), não é verdade que conviver com um distúrbio psiquiátrico deixa alguém mais brilhante.

E daí que o fato da narradora-protagonista se chamar Aza Holmes e se envolver, bem superficialmente, em um mistério é simplesmente uma forma de John Green fazer uma piada com este clichê que perdura desde que Conan Doyle decidiu criar um grande detetive de mentalidade científica e personalidade antissocial. Se em algum momento a verdade sobre o desaparecimento de um bilionário fugitivo da polícia se revelará, será da forma mais corriqueira e mundana possível.

Em tempo: Quando comecei a escrever este texto, sabia apenas que o livro havia sido inspirado pela experiência do próprio autor com o TOC. Porém, acabei me deparando com um vídeo em que John Green fala um pouco mais sobre sua experiência com o transtorno e sobre o que o motivou a escrever o romance. Decidi não editar o original para manter minhas impressões, mas aqui vai o que diz o próprio (áudio e legendas em inglês):

Me parece que as coisas que acontecem lá dentro de nós são difíceis de expressar, em parte porque essas experiências são inacessíveis aos sentidos. Normalmente, você não consegue ver ou ouvir a dor psíquica, e ela é difícil de explicar sem analogias e metáforas. Por exemplo, eu posso dizer que sinto como se houvesse um vazio em mim, ou que meu interior está destruído, ou que meu cérebro está pegando fogo. Eu posso dizer mais como é do que o que é. 



***

A experiência que ele conta, sobre ser dominado por um pensamento e não conseguir tirá-lo da cabeça com nenhum filme ou livro e ser incapaz de não se sentir apavorado pelo pensamento obsessivo é muito familiar para mim, que convivi durante muitos anos com a síndrome do pânico. Embora seja um transtorno mental diferente do TOC, a dinâmica do pensamento intrusivo, obsessivo e assustador (no meu caso, de que algo muito, muito ruim estava prestes a acontecer e eu iria morrer de alguma doença ou acidente) me parece praticamente a mesma. Os resquícios destes medos irracionais permanecem até hoje, e eu sou capaz de passar uma noite em claro, em pânico, se acha que comi alguma coisa meio fora da validade, e de pesquisar de forma incessante sintomas de qualquer mínima alteração que apareça no meu corpo. É um avanço, para quem já foi capaz de provocar vômitos, descer de ônibus no meio da estrada ao sentir um cheiro de queimado ou simplesmente se recusar a sair de casa e ir para um pronto socorro.

***
Outro momento do livro familiar para mim foi uma pequena coincidência um tanto quanto sinistra. Há dois anos eu descobri que um (ex) amigo meu havia criado e-mails falsos em meu nome e no nome do meu ex namorado e mandando muitas mensagens para ele e para a mulher que estava com ele na época, emulando mal e porcamente coisas que eu diria (e que esse amigo sabia por conversas privadas e por posts deste blog em seus primórdios), mandando fotos e usando músicas da Alanis Morissette, de quem o tal amigo é tão fã quanto eu, cujo teor era de retaliação por ele estar em um novo relacionamento. Há muitos detalhes nesta história que não vem ao caso, mas o fato é que tanto o meu ex quanto a sua namorada acreditaram no embuste e obedeceram às exigências de que meu ex, em particular, não deveria entrar em contato comigo. Uma burrice, diga-se de passagem, pois bastava uma mensagem para que tudo fosse esclarecido. Eu acabei sabendo disso por ela, da forma mais inusitada possível. Este amigo acabou deletando as contas de e-mail depois. Nunca mais nos falamos propriamente -- e já não nos falávamos quando ele fez isso, o que foi uma de suas motivações. Ele é de Minas Gerais.

Em determinado momento da história, Daisy e Aza querem conseguir o registro policial do desaparecimento do bilionário. Daisy bola uma artimanha: ela cria um endereço de e-mail praticamente igual ao de uma jornalista que escreveu uma matéria sobre o caso e manda para o colaborador da história, que deduz ser um novato na redação, pedindo uma cópia do registro. Ele manda.

Bem-vinda ao futuro, Holmes. O negócio agora não é mais hackear computador, é hackear a alma humana. O arquivo está no seu e-mail.
Ao ficar preocupada com a possibilidade de o rapaz ser demitido e elas serem pegas e presas, Daisy responde: "Eu estou em um Wi-fi público, dentro de um restaurante, usando um IP que me localiza em Belo Horizonte, Brasil (...)"

Mycroft:   Oh, Sherlock, o que dizemos sobre coincidências?
Sherlock: O Universo raramente é tão preguiçoso.

[Drops] 3 livros de horror: Frankenstein | Drácula | O Rei de Amarelo



Série de impressões de leitura.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno (Frankenstein: or the Modern Prometheus), Mary Shelley
240 páginas, Nova Fronteira
Tradução de Adriana Lisboa

Segundo Mary Shelley, sua intenção era escrever uma obra de terror que nos fizesse estremecer, "capaz de trazer à tona os medos secretos de nossa natureza." Além de ter conseguido ser precursora da ficção científica, o que ela alcançou aqui não foi uma história de causar medo, mas uma capaz de trazer reflexões filosóficas sobre ética, moral e existência.


Apesar de Victor Frankenstein viver em estado de angústia e terror psicológico por ter dado vida a um ser de aspecto deformado, imprevisível e capaz de crimes terríveis, a grande infeliz é a Criatura que, abandonada à própria sorte por seu criador, é obrigada a descobrir como sobreviver e logo se depara com o medo e o asco que sua aparência causa nos seres humanos, que podem se tornar os mais cruéis na presença de tal ser. É a partir da raiva de ser injustamente marginalizado e da inveja de não ter uma única pessoa que se compadeça de seu sofrimento e solidão, que surge o monstro cruel, incapaz de medir esforços para se vingar de seu criador se este não atender seu desejo de lhe conceder uma companheira.


É inevitável que qualquer um que se sinta um pária se identifique com os sofrimentos da Criatura. Inclusive, foi a leitura deste livro que primeiro inspirou John Logan a criar a série Penny Dreadful: homossexual assumido, crescido em uma época em que isto era visto como um desvio e uma perversão, ele se sentia frequentemente incompreendido e injustiçado.

"Sou mau porque sou infeliz. Não sou repudiado e detestado por toda a humanidade? Você, meu criador, triunfaria fazendo-me em pedaços; lembre-se disso e diga-me por que devo ter pelos homens mais piedade do que eles têm por mim. Se você me jogasse dentro de uma dessas fendas no gelo e me destruísse, eu, a criação de suas próprias mãos, não chamaria seu gesto de assassinato. Devo respeitar os homens quando eles me condenam?"


Drácula (Dracula), Bram Stoker
648 páginas, Penguin Companhia
Tradução de José Francisco Botelho

É um pouco difícil ter algo a acrescentar sobre esse livro, embora ele contenha fontes infinitas de discussão. Dá pra dizer que é um livro extenso, prolixo, cuja primeira metade está recheada de bons elementos do suspense e do terror. Já na segunda, a história se desloca da ameaça sinistra que paira o ambiente para uma trama do bem contra o mal, dos mocinhos contra os bandido, a fim de vingar e libertar as donzelas.


Mas essa é uma leitura superficial: por baixo, há vislumbres sobre sexualidade, sobre o papel das mulheres (inclusive boas passagens sobre as chamadas Novas Mulheres vitorianas, espécie de pré-feministas), os avanços da ciência e tecnologia, a influência do dinheiro e é interessante notar que se por um lado a mera consciência de que uma criatura é má é o suficiente para despertar o ódio e a vontade de aniquilação por parte de alguns personagens; por outro, há a argumentação sobre compaixão e a reflexão sobre a condenação de um destino não escolhido -- por exemplo, ao ser atacada pelo vampiro, Mina levanta para seus amigos a questão de que se por acaso viesse a se tornar vil, mereceria o mesmo ódio dispensado ao monstro.


Drácula se trata de um romance epistolar, composto de fragmentos que apresentam os pontos de vista dos envolvidos na perseguição ao vampiro, dando ao leitor a sensação de estar analisando autos de um processo. Quem procurar o romance achando que vai encontrar uma narração sobre os ataques e terrores do conde e seu ponto de vista vai se decepcionar: ainda que esteja repleto de situações aterrorizantes, o foco do livro não são os horrores do monstro mas a perseguição para combatê-lo.

Recomendo a edição da Penguin Companhia, repleta de bons textos de apoio.

O Rei de Amarelo (The Yellow King), Robert W. Chambers
256 páginas, Intrínseca
Tradução de Edmundo Barreiros

Mantendo-se fiel à edição original, o livro é dividido em duas partes: a primeira, com quatro contos entre o sobrenatural e o terror, onde estão concentradas as histórias sobre "O Rei de Amarelo" -- um volume de capa amarela, que contém uma sinistra peça de teatro que todos evitam ler e cujos aqueles que leem, têm suas vidas transformadas. Ou, em alguns casos, eventos estranhos ocorrem e o volume costuma aparecer misteriosamente por perto. Segundo Orsi explica, a capa amarela do volume - assim como os trajes do rei -, seria uma referência à chamada literatura amarela do final do século XIX, em que o amarelo simbolizava o pecado, a doença e a arte moderna.

Na segunda parte, Chambers envereda por um caminho mais realista, no chamado Quarteto das Ruas, que aparentemente nada têm a ver com os primeiros. As duas partes são dividas pelas histórias "A Demoiselle d'Ys" e "O paraíso do profeta", consideradas de transição por marcarem a passagem do universo fantástico dos primeiros contos, para o realismo dos últimos.

Na parte um, referente ao Rei de Amarelo, o conjunto lembra a narrativa de filmes como Babel, com vários núcleos que se passam em diferentes locais (e, no caso, até épocas) mas que estão interligados de alguma maneira, complexa. O fato, é que se tratam de quatro situações que se tornam estranhas a medida que a peça amaldiçoada se faz presente. Deste bloco, "O Emblema Amarelo", onde toda noite um certo vigia da rua aparece como cocheiro fúnebre em um sonho, certamente é o mais sinistro dos quatro.

Na parte dois, cada um dos quatro contos tem um nome de rua, como se em cada uma se encerrassem pequenos universos.  Assim como no bloco anterior, nesta parte do livro as referências se cruzam, aparecendo diversas variações dos mesmos personagens (ou talvez vários personagens com nomes iguais, inclusive alguns vistos na parte um). Chambers usa sua própria história como americano estudante de artes em Paris neste quarteto de contos, mais realistas mas de alto teor romântico. Ainda assim, cada um deles deixa no ar a impressão de um mistério não revelado, que muitas vezes podemos adivinhar ou intuir mas que não chega a ser dito. "A Rua dos Quatro Ventos" é aquele em que o autor se sai melhor, criando uma trama que se desenvolve lentamente, mostrando os horrores da guerra.

Resenha completa aqui.

***

"Frankenstein" e "Drácula" foram parte do Projeto Penny Dreadful (aqui). Balanço de leituras do projeto aqui.

Leia também:
As referências literárias da série Penny Dreadful
[Drops] #1 O conto da Aia | Submissão | Pequenas Grandes Mentiras
[Drops] #2 3 mangás: Erased | Aoharaido | Orange
[Drops] #3 A série Napolitana de Elena Ferrante
[Drops] #4 2 livros de Patti Smith + Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur 

Leituras do semestre #2



Como não fiz o compilado do segundo trimestre, vai aqui o que li entre abril e setembro de 2017. Não publiquei resenhas no blog durante este período, somente impressões de leitura -- caso queira acessar, é só passar o mouse sobre a capa.

Veja também:
Leituras do trimestre #1 (2017)

Vale comentar que esse foi um período curioso: durante quatro meses, praticamente não consegui engatar a leitura de romances e me aventurei a ler séries inteiras (ou quase) de mangás, uma atrás da outra, de vez em quando complementando a leitura com o anime e/ou os live-action disponíveis. Às vezes o anime ou série ou filme veio antes. Não sou leitora habitual de mangá e sempre tive uma imagem um tanto estereotipada da coisa, o que mudou completamente após essa experiência. Poderia fazer um post inteiro sobre isso, mas vou me limitar a dizer que boa parte do que li (geralmente shoujos e joseis realistas, voltados para o cotidiano) foi o equivalente a acompanhar séries de TV. Boas séries de TV. Mesmo os aparentemente mais infanto-juvenis (algumas das capas não fazem jus ao conteúdo), não devem em nada a muitas séries e filmes indie adolescentes que adulto nenhum tem pudor de assistir e gostar. E foi justamente essa impressão que me levou a procurar os animes e live-actions.

O balanço é que geralmente o anime vale mais a pena em muitos dos casos, mas acabei descobrindo que vários e vários filmes japoneses, filmes sérios, muitos dos quais premiados no país, são adaptações de mangás. Eu não sabia nem que o clássico sul-coreano Oldboy era uma adaptação de um mangá japonês. Então tem de tudo: de live-actions bem bobinhos, voltados para o público infanto-juvenil, a filmes adultos muito bons, todos derivados de mangás. Obviamente que não li todos os mangás, as séries costumam ser bem longas, mas fica a dica para quem, como eu, tem (tinha) preconceito com a mídia. Lendo as coisas certas, as histórias não devem em nada a nenhuma boa graphic novel.

Falei sobre três mangás que gostei muito aqui. Mas o meu preferido mesmo foi Nodame Cantabile (mangá josei que tem a música clássica como fio condutor e cujo anime é ainda mais legal, já que a música ganha vida) e penso em fazer uma resenha só para ele em breve.













Mangás

Leituras decepcionantes:

Kimi ni Todoke - Que chegue a você (28 volumes, em andamento)
Good Morning Call (11 volumes, finalizado. Desisti logo nos primeiros)
Your Lie in April (11 volumes, finalizado. Li o primeiro e não gostei)

Leituras ok:

Toradora! (10 volumes, em andamento. Li o que foi publicado e finalizei com o anime)
Itazura na Kiss (23 volumes, interrompido. Li 7 e finalizei com a série de TV)
Strobe Edge (10 volumes, finalizado)

Melhores leituras:

Aoharaido: A primavera de nossas vidas (13 volumes, finalizado)
Orange (5 volumes, finalizado)
Erased: A cidade onde só eu não existo (9 volumes, finalizado)

Nodame Cantabile (23 volumes, finalizado)
Nodame Cantabile: Opera Hen (Volume único)
Death Note (13 volumes, finalizado. Lendo o volume 5 no momento)

[Drops] 3 livros: Só Garotos | Linha M | Outros jeitos de usar a boca



Série de mini impressões de leitura.

Só Garotos (Just Kids), Patti Smith
Tradução de Alexandre Barbosa de Sousa
280 páginas; Companhia das Letras

Uma das melhores leituras que fiz e uma das que mais mexeu comigo -- logo no início já fiquei emocionada. A relação que Patti e Robert Mapplethorpe mantiveram ao longo da vida é uma das mais bonitas, assim como a história de vida deles, vindo de origens humildes, passando fome e vários outros perrengues juntos na luta para conseguir fazer e viver de arte.

É muito bonita a maneira como Patti Smith amarra essa história, repleta de pequenas sincronias, desde o dia em que se conheceram até o dia da morte de Mapplethorpe. Me fez pensar em algumas pessoas e situações da minha vida, fazendo com que me identificasse em vários pontos e talvez por isso a leitura tenha sido tão impactante e inspiradora para mim. Fica a recomendação, principalmente para os envolvidos com arte e cultura.

Linha M (M Train), Patti Smith
Tradução de Claudio Carina
216 páginas; Companhia das Letras

Em seu segundo livro de memórias, Patti Smith mantém seu estilo poético e nada cru para recontar momentos de sua vida, sempre ligados de forma quase mística a algum sinal que aparece pelo caminho dela.

Como entrega logo no início (e pelo título, M Train, cujo sentido em inglês seria 'trem da mente'), não há uma única história a ser contada, uma trama a ser desenrolar - há apenas uma mulher tentando compreender o que significa envelhecer e passar dos sessenta anos. Se há um tema aqui, ele seria basicamente a perda: a perda da sua cafeteria preferida, de um casaco querido, de ídolos, amigos e, principalmente, de seu marido e da infância dos filhos. Linha M é Patti Smith seguindo em frente e solitariamente com sua vida.

Além dos ótimos insights, das reflexões permeadas de referências literárias (Rimbaud e Murakami, principalmente, mas não apenas), cinematográficas e de séries policiais como The Killing, Wallander, CSI, Law & Order, Luther e outras (ela chega a dizer que gosta mais de detetives ficcionais que de muitas pessoas reais), o grande barato do livro é que o universo de Patti é amplo e ela está mais preocupada em contá-lo de uma forma poética que factual.

Outros jeitos de usar a boca (Milk & Honey), Rupi Kaur
Tradução de Ana Guadalupe
208 páginas; Planeta Brasil


Rupi Kaur escreve poemas poderosos sobre abuso físico e emocional, ausência, amor, perda, autoestima, feminilidade e cura. Algumas vezes ela pode ser motivacional demais, pendendo mais para a autoajuda do que para a poesia, mas esse lado equilibra bem com a afiação de todo o resto. 

Gosto da musicalidade dos poemas no original; na edição brasileira eles perdem essa musicalidade. A tradução da também poeta Ana Guadalupe é muito boa (admiro os tradutores de poesia, não é tarefa fácil), mas os poemas soam muito melhores em inglês.







Leia também:

[Drops] A série Napolitana, Elena Ferrante



Impressões de leitura sobre a tetralogia napolitana, da escritora italiana que assina com o pseudônimo de Elena Ferrante. A série foi responsável por gerar a onda chamada Ferrante Fever (febre Ferrante), e com razão: se o primeiro livro prepara todo o terreno para o que vem a seguir, os seguintes cumprem com a promessa de entregar histórias envolventes, bem narradas e realistas, fazendo com que o leitor acompanhe vidas inteiras de pessoas saídas da pobreza de Nápoles enquanto a Itália e o mundo mudam. Apesar das capas alegres da edição brasileira (prefiro as italianas), as páginas estão cheias de dor, violência, perdas, mortes e sofrimentos diversos, mas passam longe da manipulação do leitor e do sentimentalismo barato. É apenas a vida seguindo seu rumo; apenas a realidade apresentando sua face.

Em nota relacionada, a série está prevista para ganhar uma adaptação para a TV pela HBO em 2018. Vem coisa boa por aí.

A amiga genial (L'amica geniale)
Tradução de Maurício Santana Dias
336 páginas; Biblioteca Azul

Ainda que o ponto principal de “A Amiga Genial” seja tratar do período de formação e a dinâmica da relação entre Elena e Lila, o que mais chama a atenção é violência que perpassa o romance, em especial a violência cotidiana contra a mulher. Vivendo em uma vizinhança empobrecida, de baixa escolaridade e com alto índice de criminalidade, a maioria das mulheres, assim como os homens, deixavam a escola cedo para ajudar na casa ou nas finanças da família e eram encorajadas a casar ainda adolescentes, com homens de situação financeira melhor e assim ficava bem claro quem mandava e quem deveria obedecer.”

Resenha completa: aqui

A história do novo sobrenome (Storia del nuovo cognome)
Tradução de Maurício Santana Dias
472 páginas; Biblioteca Azul

'História do novo sobrenome' é mais viciante que 'A amiga genial', mas também mais novelesco: os dramas giram em torno de amores não correspondidos, casamentos, maternidade, estudos, brigas intermináveis entre famílias. O que impede que a história se torne uma grande novela das oito é o talento da autora, que é astuta ao construir sua trama sem criar cenas gratuitas, faz uso de referências sofisticadas e vocabulário rico e trata de assuntos sérios como pobreza, ignorância, violência e violência doméstica de forma crua, sem cair no melodrama.

O livro acompanha Lila e Lenu da adolescência ao início da vida adulta, por onde seguem por caminhos diametralmente opostos, e chega a irritar a forma como Lenu fica o tempo inteiro se comparando/competindo com a amiga e imaginando que as vidas alheias giram em torno dela. Talvez seja um recurso para tentar despistar o leitor e surpreendê-lo, talvez sejam traços calculados do complexo de inferioridade narcisista de Lenu, mas ela me cansou bastante e se mostrou uma personagem cada vez mais chatinha. E eis mais um êxito de Ferrante: Lila é o tempo todo descrita pelos personagens como possuidora de uma força natural capaz de atingir a tudo e todos e essa força é tão evidente até para o leitor, transformando Lila na verdeira protagonista e fazendo com que Lenu, a narradora, não passe de uma coadjuvante sem graça, mesmo quando a outra está completamente distante.

A história de quem foge e de quem fica (Storia di chi fugge e di chi resta)
Tradução de Maurício Santana Dias
416 páginas; Biblioteca Azul

Desigualdade, revolução, movimento feminista e contracultura são os elementos que costuram o pano de fundo das vidas de Elena e Lila, agora beirando os 30 anos. Elena permanece sendo uma personagem um tanto quanto vazia, frívola, que me irrita profundamente, e uma narradora não muito confiável. Lila, vista pelos olhos de Elena, parece pior do que realmente é. Ela entende muito cedo como o mundo funciona e do que as pessoas são feitas.

Com a série napolitana Elena Ferrante me parece escrever um tratado sobre as existências femininas, da infância à velhice. Esse aqui é melhor livro da série.


A história da menina perdida (Storia della bambina perduta)
Tradução de Maurício Santana Dias
480 páginas; Biblioteca Azul

A primeira metade deste livro me entediou e irritou bastante pela obsessão de Lenu com o sedutor em série Nino. Sei que entre os fãs existe a brincadeira Fuck Nino Sarratore, mas para mim fica claro que Lenu sabe o que está fazendo e faz mesmo assim. Ambos se merecem. É bem chato o melodrama novelesco de uma Lenu adulta vivendo como uma adolescente apaixonada, incapaz de resistir a Nino somente por olhar para a beleza e o charme dele. Basta ele sair de cena que o livro melhora consideravelmente.

Na maturidade, Lenu se torna um pouco mais interessante, mas ainda mantém seus traços de pessoa competitiva, com complexo de inferioridade, sempre se comparando às mulheres com quem convive, principalmente Lila, a quem nunca deixa de enxergar como uma espécie de ameaça. Já Lila não teve uma trégua na vida: sua jornada é a do sofrimento e tentativa de sobreviver com alguma dignidade em meio a tanta injustiça, pobreza, ignorância e violência, sem jamais assumir o papel de vítima ou sentir pena de si mesma. É de longe a personagem mais interessante e talvez mais verdadeira da série, sempre enxergando através e além das pessoas e das situações.

Gostei bastante de acompanhar essa história, principalmente pela forma como contexto político, social e cultural de cada época afeta na vida e nas escolhas das personagens. É melancólico perceber como os sonhos e convicções de juventude vão sendo destruídos sem piedade por uma realidade dura que não poupa ninguém. A série toda reforça a forma como o estudo e a instrução são o caminho para o desenvolvimento e para uma vida de menos privações e violência, mas mostra que são mesmo as escolhas, e suas consequências, que vão definir o destino de cada um. Um final satisfatório para a tetralogia napolitana.